"Figuras
em evidência"
Ranulfo Pedreiro
Jornalista
Em pleno reinado
conceitual, um
artista plástico volta a Londrina após dez
anos com um trabalho enfocando questões sociais,
temáticas rurais, erotismo e
mitologia – uma obra alimentada pelo corpo como espelho de
nossa complexidade.
As cores são fortes em composições
às vezes contraditórias, com
proporções
manipuladas em favor da ótica pessoal. Figurativo, ele
reconhece na imperfeição
a subjetividade humana. Na contramão do abstracionismo,
João Werner chega a
uma Londrina diferente daquela preservada em sua memória
sentimental, sem a
mesma efervescência nas artes plásticas.
Aqui, teve uma crise
durante a
adolescência que o levou ao ateliê de Henrique
Aragão, onde se iniciou na escultura e pintura,
já decidido por gosto pessoal
a retratar a figura humana. Em São Paulo, graduou-se na
Faculdade Santa
Marcelina, emendando um mestrado em Comunicação e
Semiótica na PUC/SP. Depois
lecionou na UEL, Unopar e embarcou para a Universidade do Vale do
Paraíba, em São
José dos Campos, onde permaneceu uma década.

Em suas passagens por
Londrina,
conviveu com Paulo Menten, Henrique Aragão,
Letícia
Faria, Agenor Evangelista e Yoshiya Nakagawara. Durante um
período, fez
resenhas sobre a produção regional em um jornal
londrinense, levantando polêmicas.
DEVAGAR
“Tenho uma
carreira
razoavelmente longa em termos de tempo, são 20
anos. Eu não sei se a gente fica com aquele sonho do
passado, saí daqui com um
crescimento cultural. Voltei e a área cultural
está ótima, com teatro, dança,
música. Mas nas artes plásticas eu fiquei um
pouco decepcionado, está
devagar, não sei se é muito subjetivo, mas esteve
melhor”, comenta.
Tanto que na
decisão de
voltar para Londrina pesou a antiga agitação
vivida
pelo cenário, com espaços para
exposição, artistas se reunindo em debates e
uma interação maior.
De volta à
carreira
profissional, João Werner já conseguiu emplacar
quadros
na Galeria Bahiarte e na Loja Ambientare, além de ser
convidado para expor em
uma galeria paulistana, em agosto.
Meio desprezado por
vertentes
contemporâneas, o figurativismo vem ensaiando um
retorno ao cenário. “A próxima Bienal
de São Paulo vai ter uma sessão, o
figurativismo não morre. Acho que temos nomes importantes,
como Lucien Freud e
Eric Fischl”, ressalta.
Mas o posicionamento de
Werner
não renega o conceitual – seu mestrado enfocou
a obra de Mondrian, pintor de linhas em ângulos retos.
Há, porém, uma resistência
quanto ao excesso teórico em detrimento da
emoção. “O abstrato e conceitual
carecem um pouco de ser humano. É
conseqüência do movimento modernista. A
técnica
foi meio mal vista, é um romantismo, o ser humano teria que
se libertar do jogo
da técnica para colocar a arte como parte da teoria. Eu
discordo, porque a arte
tem seu valor próprio. O sensível e o
perceptível são essenciais da própria
obra de arte”, acrescenta.
Analisando as
dificuldades do mercado,
o pintor prevê uma retomada figurativa.
“O artista conceitual ou é professor
universitário ou vive de financiamento
do governo. O mercado de arte sempre teve resistência com o
conceitual porque
ele é o avesso da obra como mercadoria. A partir do momento
que você pretende
ter uma relação com o mercado, o desenho
é importante. Antes eu tinha aversão
ao aspecto econômico, mas hoje eu sei que ele não
pode ser desprezado”,
acentua.
SEM
BULA
Com residência
fixa em
Londrina e um ateliê montado no Jardim Piza,
João Werner cita Adorno como um dos pensadores
favoráveis a obras de difícil
assimilação: “Eu penso o
contrário, meu ateliê antes era uma sala aberta e
muita gente entrava para ver o que eu estava fazendo. Às
vezes entravam crianças
de rua. Essa identificação não tem
preço. A obra abstrata perde muito porque
depende da teoria, mas a interação sem bula
é quase impossível”.
As críticas
não
significam desprezo ou aversão, mesmo porque João
Werner reconhece obras conceituais como importantes. Mas um
incômodo transparece quando o figurativo é
enxergado com desdém: “Existe um patrulhamento.
Minha obra não se insere no modernismo porque não
causa constrangimento nem choca ninguém. O
pós-modernismo tem essa conotação de
uma arte feita dentro dos padrões clássicos e que
fica no limite entre seriedade e ironia. Meu trabalho está
neste limite também. Não faço
questão de ser considerado um artista moderno, gosto de
muitas obras modernistas, mas estou alheio a essa
tradição contemporânea da teoria acima
da tela”.
No lado de fora do
ateliê,
sobre o cavalete, descansa um quadro inacabado, com
o título “Clube de
Levitação” – em um
espaço exíguo, claustrofóbico,
quatro figuras levitam. O enquadramento, em terceira
dimensão, envolve quem vê.
A contradição do vôo aprisionado
representa o controle social sobre o indivíduo.
“A gente aceita a pluralidade em tantos aspectos da vida, e
neste não podemos
ser virulentos”, conclui, lembrando Picasso: “Tento
fazer o círculo mais
perfeito, e na diferença com o círculo
geométrico, aí estou eu”.
Dados
da publicação
Matéria
publicada no Jornal de Londrina,
Caderno
de Cultura, página 4c, 31/03/2004, Londrina (PR).
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