"O
homem no centro da arte"
Ranulfo Pedreiro
Jornalista
Artista opta pelo figurativo sem
repudiar
conceitos da arte contemporânea
Os ventos
vêm soprando uma revalorização da
figura
humana e sua complexidade. Não se trata da
discussão interminável entre arte
conceitual e figurativa, mas do reconhecimento do corpo como fonte
inesgotável
de inspiração artística. A
exposição que o artista plástico
João Werner
inaugura hoje em Londrina, às 20h30, na Sala José
Teodoro da Secretaria de
Cultura, segue esses rumos com uma temática familiar
à Cidade onde, há menos
de um século, havia mata.

Trabalhadores
rurais na colheita, mulheres estendendo lençóis,
homens bebendo
no botequim, uma garota varrendo a casa: Werner enfoca o cotidiano,
trazendo à
tona uma poética que costuma se esconder nos fatos do
dia-a-dia.
Mas
não
se trata de arte naïf – ou primitiva.
João Werner calcula ângulos,
preocupa-se com a composição, equilibrando cores
e sugerindo movimento. A
tinta não ganha um acabamento
“perfeito”, seca rápido para embutir uma
textura “rude”, próxima ao tema.
Respaldando
a
inspiração, está a teoria. Werner
estudou com Henrique Aragão,
formou-se em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina,
em São Paulo.
Como professor, deu aulas na UEL, Unopar e na Universidade do Vale do
Paraíba,
em São José dos Campos. Pesquisador, estudou a
obra de Joseph Beuys e fez um
mestrado em Semiótica na PUC (SP) sobre Mondrian.
Mas
Mondrian e
Beuys não realizaram obras conceituais, afastando-se do
figurativo? É aí que entra uma
equação disposta a romper diferenças.
João
Werner não despreza a arte conceitual, pelo
contrário. Mas, como artista,
prefere o que lhe dá prazer: a figura humana. Ou seja,
tendências abstratas e
figurativas não precisam alimentar conflitos.
“Tenho
conhecimento sobre o que é contemporâneo, mas essa
figuração é
optativa”, explica, lembrando que a pop art incentivou a
despreocupação com
temas. “Sinto meu trabalho como herdeiro dessa
despreocupação temática,
não
tenho medo de ser óbvio”, afirma João
Werner. “Eu cresci na roça, vi tudo
isso, brinquei em terreirão de café, tem um
significado. [A arte] tem que ter
um certo vínculo com o que você viveu, uma
ligação afetuosa”, argumenta.
João
Werner defende a liberdade com que optou pelo figurativo, criticando
patrulhamentos. “Você pode encontrar qualidade em
tudo, as escolas têm que
se voltar para esse valor democrático”.
Como
valorização do figurativo, Werner cita o trabalho
de Lucien Freud e a
abertura que a última Bienal de São Paulo deu a
autores não abstratos. “A
arte conceitual depende da teoria, precisa ter uma bula. E se a bula se
perde,
muito da arte conceitual se perde”, ressalta.
O que
não significa um abandono do embasamento teórico.
Werner valoriza o
fundamento para que o artista tenha liberdade para definir os
próprios rumos.
“Nos Estados Unidos, os caras ensinam como em uma academia:
luz, técnica,
manipulação de tintas. [Aqui] os professores
deveriam mostrar as várias
possibilidades, e deixar livre para que o aluno procure a
própria expressão”.
Além
da
exposição que abre hoje, João Werner
vai mostrar sua obra em São
Paulo, em agosto, na Galeria Marli Villas-Boas. E, ainda neste ano,
pretende
expor trabalhos inéditos na casa de chá Jasmin,
em Londrina.
Dados da
publicação
Matéria
publicada no Jornal de Londrina,
Caderno
de Cultura, página 12, 15/04/2005, Londrina (PR).
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