"A violência que está nas telas", Paulo Briguet
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Já faz tempo que o ateliê de João Werner é um computador. Pincéis, paletas e tintas ficaram no passado. Para trabalhar, o artista plástico londrinense usa uma caneta digital e o Gimp, um software de código aberto. Diariamente, Werner passa por galerias do mundo inteiro, atualiza seu site e monitora a utilização de suas telas por usuários da internet. Também recebe convites para exposições.
A mais recente boa notícia para João Werner veio do site americano Projekt30. Ele foi selecionado, com outros 29 artistas de vários países, para a exposição virtual com temática Ultraviolence. Nove telas do artista estão sendo exibidas no portal www.projekt30.com) desde o último dia 22.
"Deve ser a minha quarta ou quinte exposição virtual", diz João Werner. Ele ficou satisfeito ao ser selecionado para a mostra do Projekt30, que é uma galeria online, com o objetivo de divulgar e comercializar arte pela internet. "As galerias americanas e europeias despertaram para a internet. Fazem pesquisas extensas em sites de artistas do mundo inteiro. A indústria cultural está procurando formas de transformar a internet em algo lucrativo."
A pintura por computador transformou a vida artística de João Werner. "Ainda mantenho meu ateliê – até por saudosismo. É difícil a gente se desfazer das antigas ferramentas", diz o artista. "Mas o computador facilitou bastante o meu trabalho. Uma tinta a óleo de qualidade tem um preço exorbitante. Uma tela de tecido durável custava R$ 150 por metro quadrado, da última vez em que comprei uma. E se você errar uma pincelada, parece que jogou dinheiro pela janela."
O software Gimp – que está disponível gratuitamente na Internet – eliminou custos e dificuldades para o artista, liberando-o para o procedimento criativo e imaginativo. "É claro que não tenho mais a fisicalidade da pintura – a tinta, o cheiro. Mas, em termos de concepção e execução, o trabalho é o mesmo."
Há quem critique as facilidades da informática. Mas João Werner argumenta: "Não existem técnicas exclusivas do computador. O que o computador faz é reproduzir, amplificar, dinamizar, melhorar o que a arte tradicional já oferecia".
O trabalho recente de João Werner se adequou perfeitamente ao tema proposto pela exposição virtual do Projekt30. Há alguns anos, Werner tem retratado o submundo da violência, do crime e da proscrição. "Apesar de maldito, o tema da violência me cativa. Não pretendo abandoná-lo tão cedo. Mas sempre mostro a violência pelo olhar da vítima, e não do algoz. Não tenho nenhum tipo de sadismo."
capa do Jornal com reprodução de 'Baudelaire e as flores do mal
Entre as telas de Werner no site americano, há títulos como Caim e Abel (inspirado no assassinato bíblico), Baudelaire e as flores do mal, A princesa de Karas mostrava a louça e a prataria, Briga e Briga 2. Misturando humor e expressionismo, o artista londrinense faz a síntese visual da ultraviolência, termo utilizado por Anthony Burgess na distopia Laranja Mecânica.
Artista pretende voltar à escultura
João Werner tem 46 anos. Começou no mundo das artes plásticas aos 19, estudando no ateliê de Henrique Aragão, em Ibiporã. Em quase trinta anos de carreira, ele já trabalhou com os mais diversos materiais e técnicas: madeira, ferro, gesso, óleo, aquarela, pastel, nanquim, escultura, pintura, gravura, desenho, serigrafia. Depois do estágio com Aragão, graduou-se em São Paulo.
a mesma reportagem no website do Jornal de Londrina
Nos próximos dias, o ateliê de João Werner vai mudar de endereço – da Rua Pernambuco para a Rua Olinda, perto do Zerão. Lá ele pretende fazer uma exposição (não virtual) de telas da série Sátiros e Ninfas, em que trabalhou nos últimos dois anos. No novo espaço, ele pretende se dedicar à escultura. "Minha origem é a escultura, e isso não dá para fazer por computador", diz o artista.
a reportagem republicada no site do Jornal de Maringá
Nem por isso Werner pretende se desconectar ou se afastar das telas de computadores. "A efervescência cultural na internet é muito grande. E isso é muito bom para os artistas, que até ontem dependiam da indústria cultural para divulgar o que faziam."
Dados da publicação
Paulo Briguet, "A violência que está nas telas", Jornal de Londrina, pp. 18, 27 de abril de 2010.