"Reconhecimento internacional', Nelson Sato
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A imagem de um crânio aberto é, para dizer o mínimo, incômoda para os observadores menos acostumados à arte contemporânea. Nas mãos do artista paranaense João Werner, a cabeça ôca ganhou toques de humor surrealista ao reproduzir uma piscina onde três jovens se divertem saltando de um trampolim.
'Essa gravura retrata uma espécie de lazer mental', explica o artista, que teve o trabalho selecionado para uma coletiva de arte digital nos Estados Unidos. A obra, intitulada 'A Piscina', foi uma das 19 escolhidas para participar da exposição 'Digital Art Extravaganza' que será inaugurada esta semana na Limner Gallery, na cidade de Houston, a 40 quilômetros de Nova York.
A seleção dos trabalhos ocorreu através de um concurso na Internet com participação de artistas do mundo inteiro. 'A exposição é voltada para a linguagem grotesca, bizarra, o que se aproxima de minha produção atual. Quem for procurar beleza, no sentido clássico do termo, não vai encontrar. Nada ali tem intenção de agradar. A proposta da galeria é difundir arte de contestação, obras polêmicas e pouco acessíveis ao grande público. Fui o único brasileiro selecionado', salienta.
Embora seja direcionada para a arte criada em computador, a coletiva terá todos os trabalhos impressos em formato físico para a apreciação dos visitantes. A inauguração será na próxima quinta-feira permanecendo em cartaz até 24 de abril. Durante esse período, um júri formado por críticos especializados selecionará três obras para serem publicadas posteriormente em uma revista da galeria.
Essa é a segunda participação de Werner no circuito artístico norte-americano. No ano passado, uma de suas gravuras participou de um salão realizado pelo Museu da Fotografia da Califórnia, em Los Angeles. 'Todas essas oportunidades estão surgindo graças à web. A internet tem possibilitado que artistas de qualquer parte do mundo possam acompanhar os eventos e competir de igual para igual com seus pares, especialmente na área da arte digital', assinala ele.
Werner salienta ainda que, no exterior, as galerias são mais receptivas a obras voltadas para conteúdos como morte, suicídio, incesto e uso de drogas - assuntos que passaram a frequentar suas gravuras. Segundo ele, o meio artístico brasileiro ainda preserva tabus temáticos, embora esboçe alguma oxigenação.
'Percebo que o graffiti está abrindo espaços. Os Gêmeos (famosa dupla de irmãos grafiteiros de São Paulo) já comercializam suas obras por milhares de dólares', afirma o artista nascido em Bela Vista do Paraíso e radicado em Londrina. Os trabalhos selecionados para a 'Digital Art Extravaganza' podem ser conferidos no site www.slowart.com/limner/current/upcoming.htm.
Dados da publicação
Nelson Sato, "Reconhecimento internacional", Folha de Londrina, Caderno "Folha 2", pp. 02, 30 de março de 2010.