"Avesso da estética", Nelson Sato
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Virou lugar-comum ressaltar as virtudes da web como meio de divulgação da produção artística. O pintor paranaense João Werner, radicado em Londrina, é um dos que têm obtido respostas surpreendentes para seu trabalho ao explorar a rede. ''Acho que a internet está substituindo o ambiente cultural físico'', afirma ele.
Werner, 41 anos, inaugura nova exposição hoje, às 18 horas, na cidade. A mostra, intitulada ''Cinzas'', fica em cartaz até o dia 13 de outubro na Sala José Teodoro da Secretaria Municipal de Cultura (Praça 1º de Maio, 110), com visitações de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h. O artista apresenta 11 telas pintadas com tinta a óleo, em tamanhos que vão de 50x70 cm a 160x100 cm.
''Não há cor em nenhum dos quadros. Todos foram criados em tom cinza, com variações em branco e preto. A idéia inicial era trabalhar com uma técnica tradicional usada pelo pintor Rembrandt, que pintava em cinza para depois jogar cor por cima. No processo, acabei gostando do cinza, da obra inacabada'', conta.
Werner explica que concebeu a maioria das telas no intervalo de produção de outras obras. ''Elas surgiram como resíduos durante as noites de criação'', salienta. ''São o avesso da estética clássica, da beleza e da harmonia greco-renascentista.
Penso nelas como um 'lado B' da arte. Acho que conceitos estéticos do romantistmo do século 19 como o feio, o trágico, o grotesco ou o cômico podem ser aplicados a essas pinturas. Sinto-as como uma espécie de purgação, como um exorcismo da imaginação''.
Uma das telas, batizada ''Gauguin'', mostra um grupo de crianças cheirando cola em saquinhos de iogurte. Um eventual propósito de denúncia social, contudo, é descartado pelo artista. ''Seria hipócrita de minha parte, porque todos estamos acomodados. Na verdade, o tema dessa pintura surgiu a partir de experiências pessoais, de crianças drogadas que vi em Londrina e em São Paulo. Não tenho, porém, nenhuma intenção de fazer arte de cunho social. Procurei apenas retratar cenas trágicas que marcaram minha imaginação'', diz.
Sua nova exposição coincide com o convite para participar da 6 Bienal Internacional de Arte Contemporânea que acontece de 1º a 9 de dezembro na cidade de Florença, na Itália. ''Isso só foi possível porque a comissão de seleção da Bienal acessou meu site'', sublinha. ''Por meios físicos, isso jamais teria ocorrido. A internet alterou tudo, é uma revolução que está permitindo aos artistas não só mostrarem sua produção como a apreciarem trabalhos do mundo todo''.
Segundo ele, os resultados também são satisfatórios em termos de mercado. ''Cada vez mais, comercializo meus trabalhos através da Internet. Os colecionadores estão entrando em contato diretamente comigo sem intermediação de galeria ou marchand'', revela. Werner foi pupilo do escultor Henrique Aragão com quem aprendeu as primeiras lições para retratar a figura humana em obras de arte.
Posteriormente, graduou-se em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Também na capital paulista, fez mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. Depois lecionou na UEL, Unopar e na Universidade do Vale do Paraíba (UNIPAV), em São José dos Campos, onde permaneceu uma década. Durante um período, manteve uma coluna de crítica de arte na Folha de Londrina.
Dados da publicação
Folha de Londrina, Caderno Folha 2, pp. 1, 20 de setembro de 2007.