"João, artista"

de Dulcinéa Novaes

"João, artista"Duendes, yogues, caramujos, cogumelos, figuras humanas e muita vegetação se misturam na madeira, num clima místico, quase um devaneio concreto. Seria simplesmente uma parede a mais em madeira bruta, se João Werner não buscasse as formas, os personagens misteriosos, a natureza forte, através de goivas, formões, marretas e canivete, num trabalho paciencioso e cheio de sensibilidade. também João seria hoje mais um rapazola de 21 anos, desses meio sem rumo na vida, se três anos atrês seu caminho não tivesse desaguado no mar de sensibilidade do mestre Henrique Aragão.

O menino mergulhou na sabedoria do mestre artista para aprender a entalhar. Queria se descobrir, ser artista também. Mas foi preciso ir ao fundo das águas, vasculhar, arrancar a cada tomada de fôlego na superfície as pequenas peças do quebra-cabeça da vida. Foram três anos de amadurecimento, de penitente exercício pessoal, de calos nas mãos, mas que valeram o despertar do novo artista.

A parede da cozinha da casa de Henrique Aragão, construída numa área verde afastada do centro de Ibiporã, se transformou em painel. Um enorme entalhe que retrata o ambiente bucólico e que acaba de ganhar o nome de 'Alegoria à vida do lugar sem nome'. O pequeno recanto não tem nome. Parece que qualquer rótulo quebraria o clima de silêncio e tranquilidade que guarda o lugar.

Foi nesse ambiente sossegado que Werner começou a nascer para a arte. Hoje, diante da obra concluída - a sua primeira grande obra - seus enormes olhos azuis ganham um brilho de descoberta da vida. E ele conta, sem segredos, toda essa fase de maturação.

'Até chegar aqui, muita coisa rolou na minha vida. Primeiro busquei na Faculdade de Filosofia - estudei o primeiro ano em Caxias do Sul - respostas para uma porção de coisas. Me decepcionei porque esperava uma transação mais esotérica e acabei topando com um esquema totalmente furado.

"João artista", Folha de Londrina, capaQuem estava ali naquele curso era porque não tinha outra opção na vida; ou seja, aquele era o caminho para quem queria fazer um outro curso na faculdade, e não conseguia passar no vestibular. Depois, eu achava tudo muito difícil porque não estava acostumado a morar sozinho. Acabei meio paranoico, isolado das pessoas e voltei pra casa. Continuei isolado. Era um cara estranho. Aí tive que fazer o serviço militar e acabei saindo do casulo. Na volta, não estava a fim de assumir as manias da sociedade capitalista - essa coisa chata de só querer ganhar dinheiro. Aí minha mãe aconselhou-me a procurar a Escola de Artes do Henrique, levar um papo com ele, aprender alguma coisa. Ela sentia que eu tinha que procurar algo dentro da arte. Acertou'.

João aprendeu. Muito. Absorveu do mestre o misticismo e a veia artística. Empenhou-se como um monge na arte de descobrir os segredos da vida, na prática do dia-a-dia.

'Minha vida captou um lado novo. Este encontro com o Henrique mudou minha vida no sentido espiritual. Ele é uma pessoa dedicada. Então, a gente sofreu junto e lapidou os sentimentos. Eu aprendi muito no sentido de amar as pessoas, compreendê-las melhor, a ter mais consciência de tudo o que acontece é minha volta, a perceber o verdadeiro sentido das coisas'.

Ainda adolescente, Werner lia muito, sonhava, delirava, tinha verdadeiras alucinações de tão impressionado que ficava com as revelações dos livros. Leu de Platão a Nietzsche. De Hajnishi a tudo o mais que mexia com o lado místico. Tudo que era ligado ao esoterismo o atraía.

"Alegoria" entalhe em madeira'O lance esotérico me impressionava. Todas essas leituras, fossem filosóficas ou Místicas, me deram uma boa formação. Mas não posso negar que eram todas bem distantes do sentido prático da vida. Uma coisa difícil de trazer para o plano real. Eu explico: de repente, você discute uma porção de coisas, tem argumentos, teoricamente está bem respaldado, mas não sabe como agir diante das coisas simples como lavar sua própria roupa, fazer sua comida, tantas outras atividades simples mas ao mesmo tempo importantes para quem quer sobreviver. Aqui descobri a tranquilidade'.

Morando há três anos no 'lugar sem nome', João Werner passou a conviver com a natureza, ajudando a plantar, a colher, a ter certeza do que realmente queria na vida tão sem sentido em fases anteriores. O rio, a horta, a numerosa família do caseiro, as árvores frondosas, os animais, deram mais tempero à vida.

'A única coisa que eu quero na vida é construir junto com as pessoas - construir não no sentido material, e sim no de autoconstrução, de saber construir e viver os momentos intensamente. é isso que me deixa feliz'.

Durante esses três anos, Werner trabalhou arduamente na sua arte-escola. Tempos atrás, assumiu a Divisão de Cultura do Município de Ibiporã, onde vem desenvolvendo também atividades teatrais com as crianças. É seu primeiro trabalhado remunerado. Mas ele, que sempre fugiu da sociedade capitalista, não estranha a nova vida - 'tava na hora de ganhar um pouquinho'. E são justamente as nuances da chamada sociedade competitiva que o atingem como farpas dolorosas: 'Eu me sinto infeliz quando percebo que as pessoas não tem outra intenção a não ser a de minar o trabalho que você quer desenvolver. O exemplo que a gente tem bem próximo é o que quiseram fazer com a Escola de Artes do Henrique. Tentaram liquidar um trabalho que ele desenvolveu durante 17 anos... Eu acho que essas pessoas podiam ocupar o tempo com tarefas mais construtivas'.

Cipós emaranhados, hieróglifos, pessoas, pássaros, árvores, muitas árvores, detalhes pequenos e fortes, fazem com que o grande painel seja uma descoberta a cada momento. Ele vai envolvendo os olhos. É denso nas formas, brusco e suave na textura, agressivo e misterioso nos relevos. É claro ao deixar evidente os primeiros passos do aprendiz. Como em uma escola, as fases vão se iluminando de maneira sutil.

detalhe do painelSete figuras humanas governam o universo do lugar sem nome: a própria chácara, representada por uma figura feminina; um casal, simbolizando a bissexualidade humana; três elementos que representam o mestre e ao mesmo tempo seriam um só; o amor, o momento presente. Uma dessas figuras tem três braços e lança olhos que se transformam em pássaros. Uma outra figura planta uma árvore. As formas métricas vão se soltando. João deixa de engatinhar para ganhar espaço e madeira definitivamente. Amplia o ângulo de visão, livra-se até da assimetria. Joga hieróglifos porque não devem existir as explicações, porque não quer que as coisas não percam seu real sentido de ser. A lapidação é latente.

'A figura plantando árvore simboliza xamã, aquele que planta uma árvore quando se instala num lugar. A árvore é o símbolo da vida. O labirinto é como o próprio ser humano enfrentando obstáculos. Na minha arte, esses olhos se transformam em pássaros. Os que não se transformam são devorados pela figura do mal. Os que conseguem alçar voo, passam por um labirinto de situações. O labirinto é a vida. Ganhar a vida é outra história é se a gente trabalha e ganha em troca disso, é porque nada é dado sem receber; nada é recebido sem que se tenha dado nada antes. é a recíproca. Eu Já não me perturbo com o consumo e me cuido para não me deixar envolver.'

Sentir-se artista para João Werner é uma atitude nova. Passou na prova de fogo. O grande painel é um batismo: 'Depois de tudo isso, parece que sua concepção de vida aumenta. Sei que hoje sou capaz de fazer tudo o que for possível em entalhe. Já estou até trabalhando com escultura tridimensional. É gostoso perceber os caminhos da técnica e ir canalizando a intuição, as sensações'.

O mestre Aragão ouve. Em silêncio. Uma ponta de orgulho em ver que um rebento dá seu primeiro fruto. Finalmente, um artista. O aprendiz captou a lição. não foi preciso palmatória. 'Nossas palmatórias são cósmicas' - diz solene. Gente doce e dócil, o Aragão. 'O importante é unir os dois fios e dar um nó. O desenho bonito Deus vai delineando de cima e a gente vai construindo embaixo. Todos fazemos parte de uma grande família que tem que tecer o tapete do amor de Deus. Antes de mais nada, é preciso se construir. Esse tecido que vou construir dentro de mim, é minha missão na terra. Se eu não vim para construir alguma coisa boa, então minha passagem por aqui não faz sentido. Esta é a minha concepção de vida' - diz o místico Aragão.

O entalhe de João Werner vai ganhando os olhos. Descobre-se mais um detalhe. É tudo tão simples e rústico, rico e generosamente criativo. O mestre também se admira: 'é a caminhada de mais de um ano, de alguém que descreve a trajetória do feto, desde o momento da concepção até o nascimento. Nascimento à luz e dor. A dor é o preço da entrada no mundo. Veja' - comenta, apontando a obra.

O artista nascente ouve o mestre, atento. Como um profeta, Henrique vai descrevendo o grande painel: 'Está vendo esses hieróglifos? Esta escrita pictográfica? são as perguntas que ele faz para Deus perante o mundo. Mas são coisas que ele vai ter que descobrir fazendo. Ele é um artista e então vai ter que sofrer para pagar o preço de ter chegado à luz. Ele acaba de nascer'.

Na cozinha, a iluminação para o grande painel ainda não está pronta. Henrique estuda minuciosamente uma maneira de fazê-lo cada vez mais integrada ao ambiente, como se tivesse nascido ali, cravejado de formas e figuras. Ele defende o conceito de que arte não existe somente para ser mostrada e sim para fazer parte do ambiente, da vida das pessoas.

'A arte mesmo é igual comer, dormir, tomar banho. Ela não é para ser mostrada como objeto. é para fazer parte da vida. A beleza tem que fazer parte da vida. Arte para ver, para consumo apenas, é coisa burguesa. No mais, é necessário perder-se no divino, para conhecer o humano'.

E Henrique é dessas pessoas cada vez mais empenhadas em perder-se no divino. Parece ter passado esta carga cristalina para o discípulo, que agora segue seu próprio caminho, sem se desligar da influência mística e artística do mestre. João Werner vai tecendo seu tapete de amor. Ferramentas não lhe faltam. Ele se preparou e está pronto.

Dados da publicação

Publicado na Folha de Londrina, Caderno 2, pp. 13, Londrina, 09 de agosto de 1984.

Outros textos sobre a arte de João Werner

Textos de críticos de arte

Reportagens e matérias jornalísticas

Ensaios poéticos e apresentações de exposições

Livros de João Werner
à venda

Capa do livro "A figura na Comunicação Visual"

"A figura na Comunicação Visual"

Mais informações sobre o livro.
Kindle Amazon: R$ 38,37.

Capa do livro "A Terra e o trabalho com a Terra"

"A Terra e o Trabalho com a Terra"

Livro de arte com a reprodução de 34 pinturas cuja temática é o sagrado trabalho com a Terra. . São pinturas a óleo, acrílica e digitais, realizadas desde 2002.

Livro impresso, R$ 55,41.

Capa do livro "Mesa de bar"

"Mesa de bar"

Livro de arte com a reprodução de 32 pinturas a óleo, acrílicas e digitais sobre o cotidiano da vida citadina.

Livro impresso, R$ 55,41.

Capa do livro "Esculturas e relevos"

"Esculturas & relevos"

Reprodução de 48 fotografias de esculturas em cimento, madeira, ferro fundido, argila e gesso.

Livro impresso, R$ 58,06.

Capa do livro "Et in Arcadia Ego"

"Et in Arcadia Ego"

Reprodução de 39 pinturas a óleo, acrílicas e digitais de sátiros e ninfas.

Livro impresso, R$ 61,14

Capa do livro "Motel barato"

"Motel barato"

Livro de arte com a reprodução de 36 pinturas a óleo, acrílicas e digitais sobre o tema do erotismo e sexualidade.

Livro impresso, R$ 58,06.