"João Werner"

de Cláudio Funari

"João Werner", texto de Cláudio FunariDuendes, caramujos, cogumelos, figuras humanas e muita vegetação se misturam na madeira num clima místico, quase um devaneio concreto. Seria simplesmente uma parede mais em madeira bruta, se João Werner não buscasse as formas, os personagens misteriosos, a natureza forte, através de goivas, formões, marretas e canivete, num trabalho paciencioso e cheio de sensibilidade. E João seria também mais um desse meio sem rumo na vida se há seis anos seu caminho não tivesse desaguado no mar de sensibilidade do mestre Henrique Aragão. O menino mergulhou na sabedoria do mestre artista para aprender a entalhar. Queria se descobrir, ser artista também. Mas foi preciso ir ao fundo das águas, vasculhar, arrancar a cada tomada de fôlego na superfície as pequenas peças do quebra cabeças da vida. Foram tempos de amadurecimento, de penitente exercício pessoal, de calos nas mãos, mas que valeram o despertar do artista.

"Até chegar aqui muita coisa rolou na minha Vida. Primeiro busquei na Faculdade de Filosofia - estudei o primeiro ano em Caxias do Sul - respostas para uma porção de coisas. Decepcionei-me, porque esperava uma transação mais esotérica e acabei topando com um esquema totalmente furado. Quem estava ali naquele curso era porque não tinha outra opção na vida; ou seja, aquele era o caminho para quem queria fazer outro curso na Faculdade e não conseguira passar no vestibular. Depois eu achava tudo muito difícil, porque não estava acostumado a morar sozinho. Acabei meio paranoico, isolado das pessoas e voltei para casa. Continuei isolado. Era um cara estranho. Aí tive que fazer o serviço militar e sai do casulo. Na volta não estava a fim de assumir as manias da sociedade capitalista. Aí minha mãe me aconselhou a procurar a Escola das Artes de Henrique Aragão, levar um papo com ele, aprender alguma coisa. Ela sentia que eu tinha que procurar algo dentro da arte. Acertou".

João Werner aprendeu muito. Absorveu do mestre o misticismo e a veia artística. Empenhou-se como um monge na arte de descobrir os segredos da vida, na pratica do dia a dia.

"Minha vida captou um lado novo. Este encontro com o Henrique mudou minha vida no sentido espiritual. Ele é uma pessoa dedicada. Então a gente sofreu junto e lapidou os sentimentos. Eu aprendi muito no sentido de amar as pessoas, compreende-las melhor, a ter consciência de tudo o que acontece a minha volta, a perceber o verdadeiro sentido das coisas".

Ainda adolescente, Werner lia muito, sonhava, delirava, tinha verdadeiras alucinações de tão impressionado que ficava com as revelações dos livros. Leu de Platão a Nietzsche. De Hajnishi a tudo o mais que mexia com o lado místico. Tudo que era ligado a exotérico o atraia.

"O lance exotérico me impressionava, Todas essas leituras, fossem filosóficas ou Místicas, me deram uma boa formação. Mas não posso negar que eram todas bem distantes do sentido prÉtico da vida". Uma coisa difícil de trazer para o plano real da vida. Eu explico: de repente você discute uma porção de coisas, tem argumentos, teoricamente está bem respaldado, mas não sabe agir diante das coisas simples, como lavar suas roupas, fazer sua comida e tantas outras atividades simples, mas ao mesmo tempo importantes para quem quer sobreviver".

"Não procuro beleza, nem harmonia, nem inovações quando trabalho, mas sinceridade constante num processo de aproximação com o que sinto que sejam nossas relações humanas com a realidade càsmica. é a intenção do artista que faz a relação de sua obra com o social. Vejo a riqueza e a miséria degradante, a cultura milenar e o desastre nuclear com os mesmo olhos Fazem arroz com feijão e a galáxia. Humana. é a única coisa que quero na vida é construir junto. Construir não só no sentido material, e sim no de autoconstrução de saber viver os sentimentos intensamente. é que me deixa feliz".

João Werner estará expondo seus trabalhos na Coletiva de outubro, na Galeria de Arte do Banestado, 30 deste màs a 17 de maio. E ainda estão anotados em sua agenda exposições em Rolândia, Maringá, Faxinal, Apucarana e Ivaiporã.

Dados da publicação

Cláudio Funari, "João Werner", Coluna Art News, Jornal Londri-News, pp. 7, abril de 1987, Londrina (PR).

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