"A
dança"
Cida
Sepúlveda
Poeta
Passo
horas para descobrir que as três ninfas formam Clara. O
clímax do movimento é Clara, a mulher que o
artista sonha. Coxas olímpicas, braços voadores,
cabelos...ah, os cabelos me provocam – espetos negros
imprimindo emoções na primavera acinzentada,
traçando a feminilidade, invocando a música do
corpo, a luz da alma.
Clara
abandonou os ensaios de balé por causa da joanete que
apareceu no pé direito. Joanetes, além de feios,
doem. Lamentou não dançar mais. Às
vezes, ao se recordar das posições e dos
movimentos, faz cara de arrependimento, me culpa. Digo: você
é muito jovem para ter joanetes, imagina se continuasse, aos
30 os seus pés estariam só bolotas duras...Clara
aceita o argumento, não suporta a idéia de se
sentir ainda mais feia do que a feiúra que vê em
si, mesmo que tanta gente diga e repita: você é
linda!
Eu
é que fico me espionando: até onde você
é verdadeira com a menina e não lhe poda a
liberdade de ser dançarina?

"Ninfas dançando"
João
conheceu Clara no shopping, um péssimo lugar para duas
pessoas sensíveis e inteligentes se encontrarem. O acaso, no
entanto, é criativo. Ela fora comprar uma mala de viagem;
ele, indo a São Paulo, passava pela cidade e decidiu
almoçar. A loja de malas e bolsas fica ao lado do
restaurante predileto de João, uma franquia de comida
mineira.
João
ocupou uma mesa próxima à porta para observar o
povo da cidade que só conhecia de passagem. Pensou: que
mania de observar povo, como se povo...Num impulso abriu seu laptop e
começou a brincar de pintar os movimentos das
moças que passavam pelo ponto mais sombrio do shopping.
Errado,
me diz, Clara. O shopping não tem pontos sombrios,
lá tudo é tão claro que escurece.
Pois
bem, Clara está certa. O shopping é
tão iluminado que ofusca a visão, a
imaginação, o pensamento, a
emoção. Mas os dois estavam com sorte, pois se
encontraram e quase que instantaneamente perceberam suas afinidades.
Clara
entrou no restaurante para comprar uma coca cola, viciada que
é. Passando ao lado de João bateu o olhar na
pintura que se esboçava na tela e se surpreendeu com o preto
delineando as cores; aprisionando-as, não para
sufocá-las, mas para moldá-las,
dançá-las. A menina sorriu, olhou timidamente
para o autor da imagem. Ele a percebeu, não teve tempo de
sorrir, ela lhe deu as costas, constrangida.
Moça,
mocinha...João falou e imediatamente se arrependeu: o que
dizer para uma garota desconhecida que anda no shopping e toma coca
cola?
Clara
se voltou e disse, corajosa:
Você
é um grande artista.
Como
sabe, ele perguntou surpreso.
Percebi,
ela respondeu natural.
Sorriram.
Os
cabelos de Clara são longos, cacheados, castanho-claros e
nascem das profundezas de uma existência limiar entre o real
e o fantástico – ninfa contemporânea,
cujos mistérios João rabisca.
Dados da
publicação
Ainda
não publicada.
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