"Esculturas
e pinturas de João Werner"
Adalice Araújo
Crítica
de Arte,
Membro da AICA
Professora
da UFPR
Praticando simultaneamente tanto a
escultura como a pintura, João Werner
pode ser considerado como um dos nomes mais representativos da jovem
arte do
Norte do Paraná.
Embora, em criança, ele
já tivesse trabalhado com montagens, construindo
seus próprios brinquedos com madeira e papel colado, apenas
em 82 - aos vinte
anos de idade é que descobre a sua
vocação para as artes plásticas.
Desde adolescente, acostumado a
inúmeras leituras de Platão a Nietzche
sente-se, inicialmente, atraído por filosofia. De fato,
após prestar exame
vestibular matricula-se em Filosofia, na Universidade de Caxias do Sul.
Convencido, porém, de que na sociedade de consumo, altamente
competitiva,
haverá um desequilíbrio irreversível
entre a teoria e a vida, ao perceber que
não se identificava com o curso - demasiado
anacrônico para o seu temperamento
- desiste. Após o serviço militar, seguindo o
conselho de sua mãe, ingressa
no curso de entalhe em madeira na Casa de Artes e Ofícios
Paulo VI, que
Henrique Aragão mantém em Ibiporã.
Junto a esse mestre, igualmente preocupado
com o lado místico da vida, ele encontra, finalmente -
através da arte - as
respostas aos seus anseios mais profundos da vida. A convite de
Henrique Aragão
- que inclusive financia o projeto - durante um ano e meio, executa
dois grandes
painéis para a sua residência localizada a poucos
quilômetros de Ibiporã, em
plena área verde; que a transforma inclusive, em um marco da
arte paranaense.
Para a fachada da casa ele executa um
painel em concreto aparente, sua forma triangular recorda tanto o
tímpano dos templos gregos como dos portais das catedrais
góticas. O misticismo da adolescência, somado
às múltiplas leituras que vão de alta
filosofia à ficção
científica, transparecem no mundo visual que João
Werner cria, teatralizando o espaço. Esse painel denominado "SHIKASTA"
(ver
painel) inspira-se no texto do
mesmo nome de Doris Lessing. Segundo a autora, a humanidade surge como
uma experiência de seres de outras galáxias, os
quais, segundo a tradição hebraica,
são os anjos.

Seguindo o processo de
narração contínua, comum tanto ao
teatro medieval como às histórias em quadrinhos,
em cinco seqüências ele narra a
trajetória humana revestindo-a de um simbolismo especial.
"Alegoria
à vida do lugar sem nome"
(ver
painel) é o
título do painel interno
em madeira. Embora nos remeta ao clima simbolista dos relevos em
madeira de
Gauguin como "Soyes Mysterieuses" ou "Soyes amoureuses vous serez
heureuses", João Werner tece um fabulário muito
pessoal. Utilizando como
matéria prima, cedro, através de sete
figuras/símbolos que governam o
universo, ele redimensiona poeticamente o mito. Apesar do que
pássaros,
árvores, cipós e pequenos detalhes eliminam os
grandes vazios, as figuras são
dotadas de energia, dinamismo e ritmo. Ao mesmo tempo
místico e erótico, esse
painel consegue unir monumentalidade e lirismo.

Também
nas esculturas em redondo (ver
esculturas)
João Werner revela uma maneira muito
pessoal de esculpir. Nessas peças em geral de cimento,
elimina o sentido
ilustrativo dos painéis para se concentrar na figura.
Praticando um humanismo
popular, adota nas obras de pequenas dimensões que denomina
"figurinha", um cânone curto que acentua o caráter
arcaico, a
expressividade e o dinamismo contido. Sente-se aí toda uma
pluralidade de
influências. Algumas conservam a força rude e
mágica tanto das esculturas
românicas como dos ex-votos de origem popular. Outras
recordam gárgulas das
catedrais góticas; ou contém acentuada
síntese matérica.

Seu
mais recente monumento de grandes dimensões é o
"Tributo ao homem
do campo" (ver
escultura) colocado na
praça Getúlio Vargas de Cambé, em
frente à
Prefeitura Municipal que, ao mesmo tempo homenageia e memoriza o
trabalhador
rural. Elaborado em cimento, emprega tanto a técnica da
incisão (talhando
diretamente os blocos de cimento) como formas de gesso para certos
detalhes do
rosto. Aí João Werner consegue fundir o popular
ao contemporâneo.

Fazendo
referências ao cotidiano do homem rural, ele joga
três elementos
chaves: a figura vigorosa e realista de um bóia-fria
ajoelhado, braços para o
alto, que tanto podem ser um ato de súplica como de
agradecimento, um elemento
vertical de grande concentração
simbólica - espécie de menir local (por si
uma escultura independente) com entalhes de
vegetação na parte inferior em
cimento, enquanto que elementos de vegetação
pré fabricados, tubos de metal,
dominam a parte superior; uma enxada absolutamente real funciona como
espécie
de ícone do trabalho. Além de ser um monumento
ecológico em que se busca
valorizar o homem na natureza, tem todo um conteúdo de
reivindicação social.
Em
pintura, sente-se de forma mais evidente que ele une a utopia dos anos
70
à liberdade dos anos 80 (ver
pinturas). Do pós
modernismo guarda a disponibilidade de rever
vários estilos da história da arte. Ele
não teme em fazer uma ampla abordagem
temática. De início, como outros artistas do
Norte do Paraná já fizeram,
pinta sobretudo bóias-frias, para se preocupar, agora, com o
relacionamento
diário do casal, seus encontros e desencontros, em torno do
que se constrói um
verdadeiro cenário. Por vezes, a figura feminina parece
mergulhar em um
universo pompeiano de grande efeito pictórico; outras vezes
o casal se envolve
em um clima de humor e ironia, típico do expressionismo
alemão.

Apesar
de João Werner ser um artista muito jovem, ainda com um
longo caminho
a percorrer, a obra que já construiu indica-o como um
artista de personalidade
marcante, fadado a ser uma das grandes expressões da arte
nacional.
Dados
da publicação
Publicado no jornal Gazeta
do Povo, Curitiba, 05 de abril
de
1987.
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