"Pra que tanto concreto?"

de Dulcinéa Novaes

"Pra que tanto concreto?", texto de Dulcinéa NovaesO artista plástico João Werner venceu a dureza do cimento-armado e construiu a história da humanidade em cinco quadros.

Foram dois meses de trabalho a uma mídia de cinco horas diárias de muita dedicação. E lá está, na parede da frente da casa, o enorme painel formado por seis placas que relatam a história da humanidade desde os primórdios até os dias de hoje. Surrealismo? Pode ser. A verdade é que João Werner, 23 anos, discípulo do artista plástico Henrique Aragão, descobriu que podia vencer a dureza do cimento armado, com sua sensibilidade. E venceu produzindo este painel na casa (que mais parece um pequeno castelo encantado), da chácara do mestre em Ibiporã. O primeiro em madeira tomando toda a parte interna da cozinha foi feito dois anos atrês. Este trabalho novo de João Werner marca definitivamente o seu batismo como artista. Ele agora quer se dedicar mais a sua arte e viver exclusivamente dela.

A idéia de fazer um painel para a parede fronteiriça da casa era antiga, mas foi a leitura de "Shikasta" de Doris Lessing, que desencadeou o processo de criação. No livro segundo João Werner, ao traçar a historia do mundo, a autora diz que a humanidade seria uma experiência realizada por seres de outras galáxias. E que pela tradição, estes estariam representados por anjos.

"Envolve toda a tradição espiritual da humanidade. E por ter lido outros livros é que a gente pode notar que a narrativa de Doris Lessing não é tão ficcional assim. é umlivro rico em conteúdo e da a entender que ela pesquisou as teorias religiosas e se aprofundou no tema" diz João.

O painel é como uma história em quadrinhos e deu mesmo muito trabalho para fazer, uma vez que o concreto seca rapidamente. No primeiro quadro, o começo do mundo é simbolizado pela figura de um anjo e um personagem humanos ladeados por outras figuras que seguram formas geométricas. Quer simbolizar, no todo, a harmonia que existia entre os seres humanos e os seus mentores espirituais.

No segundo quadro, seres de outras galáxias, onde acontecem coisas terríveis, aponta na terra trazendo desarmonia, confusão, a destruição. A serpente simboliza o mal. No terceiro os humanos erguem barreiras e isolam seus mentores espirituais. No quarto quadrinho a sequencia mostra o surgimento da violência, com homens armados, a chegada das guerras, da poluição, a industrialização (representada por parafusos e pequenas engrenagens) e a bomba atômica anunciando o final dos tempos. No ultimo quadro o retorno do anjo da idéia de que há esperança de reconstrução após destruição total. "E o reencontro com as emanações positivas, o recomeçar dos tempos" conclui o artista.

A obra ainda vai ganhar uma escultura complementar de Henrique Aragão. Seria a unidade onipotente, onipresente e onisciente, inexplicável, que dá vida a tudo. Esta figura vai ficar quase como suporte do painel é uma espécie de sustentáculo.

Para João Werner, a utilização do concreto como material, é descoberta recente. Ele diz que tem muito que aprender. "Ainda há muitas imperfeições, mas consegui manter a unidade e o conjunto da obra está preservado. A dificuldade maior foi manusear o material que é de secagem rápida. Muitos preferem deixar secar para depois esculpir". João trabalhou sobre o cimento ainda úmido. A massa é colocada numa placa de compensado. Por dentro da massa deve ter uma estrutura de ferro. Modelá-la exige habilidade, rapidez, precisão nas formas para não perder o material preparado. O painel tem peças em metal confeccionadas por Aragão.

João Werner tem 23 anos e há mais de quatro vem sendo orientado por Henrique Aragão. Mestre de primeira. Discípulo idem. Do mestre assimilou também o lado místico, as lições da vida. Para ele a arte é vital em todos os sentidos. daí o assumir definitivamente agora, após esse período longo de aprendizagem. João tem alguns planos em vista. Até o final do ano deve expor na Galeria de Arte Banestado, um apanhado geral da sua produção que inclui esculturas em concreto, pinturas, esculturas em madeira. Recentemente apresentou um projeto para a Divisão de Cultura de Cambé, para a confecção de um monumento ao pioneiro em concreto e ferro. O projeto da obra Já está nas mãos do Secretário de Cultura José Júlio de Azevedo. está nos planos também a realização periódica de cursos na área de artes plásticas para o aprimoramento. Daqui há alguns dias João vai fazer um curso de extensão sobre história da Arte teórica e Prática, no Museu da Arte de São Paulo. além disso, João na Casa de Artes e Ofícios Paulo Vl, em Ibiporã, ensinando arte as crianças.

E o que o mestre diz de seu seguidor? Para Henrique Aragão "João não é mais meu discípulo. Já é um mestre em formação. Tem a matéria-prima boa do artista que é a humildade, a raça e está predestinado a formar outros, a cumprir missão de mestre".

Dados da publicação

Dulcinéia Novaes, "Pra que tanto concreto?". Folha de Londrina, Caderno 2, pp. 15, 19/04/1986.

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