"Entre quatro paredes", Fábio Luporini
Outros textos sobre João Werner
Matéria sobre minha exposição "Motel barato"
O ambiente é aconchegante, intimista. As lembranças são, talvez, de aventuras da juventude, de leituras ou programas de televisão. São imagens pouco aceitas pelos padrões de uma sociedade conservadora cujo limite tolerável da pornografia é o que pode ser mostrado na novela das nove, e não o que está no interior de quatro paredes de um quarto de motel. A exposição Motel Barato reúne 17 gravuras digitais com teor erótico e pornográfico, todas do artista plástico João Werner. As imagens ficam expostas pelos próximos dois meses na galeria do artista, na rua Piauí, 191, sala 71, no Centro Comercial."Não é uma exposição dentro dos padrões que a sociedade aceita. Sem dúvida tem cenas de recordação. Quando vi o conjunto das gravuras, lembrei dos motéis na saída da cidade, que eu frequentava quando moleque. Era um ambiente cheio de frufru, com aspecto perverso", conta Werner. As gravuras estão sendo produzidas desde 2006, sem um tempo determinado para a produção. Nos retratos, alguns objetos que recordam o ambiente, como abajures, frigobar, e, claro, as camas.
Temas fora dos padrões são especialidade do artista. "Vem da genética. Não consigo trabalhar por encomenda", justifica. Experiências da infância e juventude também interferem. "Minha família não foi funcional, então a gente cresce meio torto. Sempre fui meio alterado. Minha trajetória nunca seguiu padrões lineares."
Todas as imagens foram produzidas com o software Flash, usado para animações no computador. "Gosto porque ele permite um traço grosseiro e exige mais trabalho de mim. É tipo o entalhe em madeira. Vario o meu traço na espessura, fino ou grosso, ou se ele é opaco e transparente", afirma. Com um desenho menos delicado e sutil, o artista diz se aproximar da pintura expressionista. "Tem pinceladas carregadas de tintas. É tosco, mas para mim tem o valor da linguagem e expressão."Encantado com a técnica digital, Werner garante ter abandonado totalmente os pincéis. "Não volto mais para a pintura a óleo", ressalta. O encontro entre ele e o computador vem desde os monitores de tela verde e os CPUs 386. "Eu usava muito e ficava procurando um jeito de aproximar a pintura do computador. Fico imerso, envolvido. Me esbaldo", revela. De acordo com ele, os traços e estilo continuam os mesmos: mudou apenas a técnica. "Em vez de usar o pincel na tela, uso na prancheta."
A tecnologia, por sinal, deu um outro rumo à exposição. Algumas poetisas, de Curitiba e também de Minas Gerais, fizeram poemas com base nas gravuras expostas. "Vou pegar esses dois poemas, imprimir e colocar junto com a imagem. Em cinco anos, já são 250 poesias de pessoas que escrevem inspiradas em gravuras minhas", revela.
Dados da publicação
Fábio Luporini, "Entre quatro paredes", caderno "Divirta-se", Jornal de Londrina, pp. 23, 11 de março de 2011.