"Van Gogh e o signo da contrariedade", por João Werner
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Celebra-se no próximo dia 29 de julho, o centenário da morte de Vincent Willian Van Gogh. Pintor e desenhista, Van Gogh compôs um dos mais importantes conjuntos de obras plásticas do acervo da história mundial das artes plásticas.
Influenciou, direta ou indiretamente, a produção de sucessivas gerações de artistas, sendo que, pela tragicidade de sua existência, tornou-se, para todos os que amam a arte, um modelo, espécie de paradigma de personalidade artística criadora.
O signo matriz de seu ser no mundo é, seguramente, o signo da contrariedade. Contrariadamente viveu, contrariadamente continua a existir sua obra. De vida interior intensa e conturbada, a ele foi impossível uma existência regular, dentro de padrões.
Em sua atividade artística - tardia e extraordinariamente breve (quando suicidou-se contava, apenas, 37 anos) - Van Gogh encontrou somente a frustração e a indiferença entre seus contemporâneos.
Suas telas, se não eram destruídas ou vilipendiadas, eram guardadas, após sua morte, em porões e depósitos, como qualquer entulho.
Triste ironia quando, contemporaneamente, acompanhamos pelos noticiários internacionais os leilões que se fazem de suas pinturas, as quais batem todos os recordes de venda, pelo preço vultuoso que alcançam entre os colecionadores.
Há, entre os que conhecem as artes plásticas, uma quase unanimidade positiva em torno de seu nome. É um mito. O carisma comovente da intensa carga emotiva que lhe corresponde envolve e inebria a todos.
Dele, como artista, ou de sua obra, já não se deve falar posto que ingressaram, indiscutivelmente, no rol dos tesouros da humanidade, como a formalização de um ápice que, culturalmente, irá compondo nossa consciência e sensibilidade coletivas.
No entanto, no interior mesmo deste mundo objetivo da cultura que suas pinturas integram, seu legado admite ser utilizado, como modelo ou premissa, para a análise argumentativa de inúmeros problemas - sociais ou estéticos - que envolvem a arte contemporaneamente.
Um dos mais prementes problemas da filosofia da arte (como, de resto, em outros campos da cultura) que é o de estabelecer um recorte preciso entre o subjetivo (estritamente pessoal) e o objetivo (coletivo) é claramente perceptível na obra plástica de Van Gogh.
Outro problema que é intensamente vivenciado pelo atormentado pintor holandês é o da relação entre o gênio e a sociedade constituída. Estudá-lo na biografia de Van Gogh pode esclarecer, como paradigma, o âmbito da sociologia da arte.
Por estas relações fecundas é que sua obra pôde, atravessando um século desde sua trágica morte, ajudar-nos a compreender e valorar melhor nossas relações com a arte e, consequentemente, com nossa própria realidade humana.
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Dados da publicação
Escrito por João Werner, publicado na Folha de Londrina, 19/07/1990, pp. 20, Folha 2.