"A estética de Max Bense", por João Werner

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Dia 7 de fevereiro é data de aniversário de Max Bense, um dos fundadores da moderna estética informacional.

A inteligência, em sua exercitação, é um processo de natureza subversiva. Em campos inimaginados de indagação encontra alento, questionando preconceitos, derrubando fronteiras, faz luz e é frutífera no âmbito da cultura. Na arte - campo de especulação tradicional de um conteudismo estéril - muitas vezes, na história, foi negado que houvesse qualquer laço de fato entre os processos sensíveis típicos da arte e a inteligência crítica.

Tão grande, na realidade, é este preconceito que a mera sugestão de associar-se à estética alguns princípios matemáticos, causa achaques em muita gente. Este é, no entanto, justamente o principal legado intelectual que o filósofo da estética e crítico Max Bense deixou à arte.

Nascido em Estrasburgo, na Alemanha, Bense, depois de ter sido professor na Escola Superior da Forma de Ulm, ocupou a cadeira de Filosofia da Escola Politécnica de sua cidade natal. Além de filósofo, Bense era artista e escritor. Deixou sua obra filosófica composta de vários livros importantes, entre os quais o clássico Aesthetica, publicado entre 1954 e 1965, e Semiotische Prozesse und Systeme, de 1975.

Dentre as inúmeras influências que sua estética exerceu, cabe destacar o profundo intercâmbio que Bense manteve com artistas e intelectuais brasileiros. Todo o movimento concretista, na poesia ou nas artes plásticas recebeu o impacto direto de suas idéias. O grupo de poesia concreta brasileiro noigandres, composto, entre outros, por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, manteve estreitos laços de amizade com Bense. Artistas plásticos como Lygia Clark e Mira Schendel tiveram suas obras comentadas pelo filósofo alemão.

Decorrência destes inúmeros laços intelectuais, foram as exposições realizadas na Alemanha por artistas brasileiros. Várias mostras de poesia concreta - como a realizada no Technische Hochschule de Stuttgart, em 1959 - bem como exposições de artes plásticas - como a realizada por Lygia Clark, em 1964, na mesma cidade - foram organizadas.

Bense sentia profunda identificação pela cultura brasileira, a ponto de intitular um de seus ensaios de New Canibalism, numa clara referência à Semana de 22.

A estética bensiana não é uma filosofia do gosto no sentido clássico, nem tampouco pretende ser o método de análise crítica da arte. Propõe-se, sim, como um sistema aberto de experienciação, sujeito à verificabilidade de suas explicações parciais: sujeito, enfim, à refutação e aprimoramento da utilização de seu instrumental de ajuizamento.

Bense pensa a arte, portanto, a partir de um postulado racionalista - à maneira de Popper - supondo que, concomitante a todos os processos sensíveis e emocionais da obra de arte, é possível, através de argumemtação sobre dados materiais mínimos, chegar a explicações convincentes sobre o fenômeno artístico.

Esses dados mínimos compõem a materialidade da obra - objeto da cultura - visto enquanto suporte físico - cores formas, linhas etc. - e enquanto um sistema de signos referente a este sistema físico. Para avaliação da invenção na obra de arte, a estética bensiana utiliza-se de pressupostos conceituais e metodológicos da teoria da informação e da semiótica modernas.

Uma das polêmicas mais acirradas provocadas por Bense, na Alemanha, foi uma apresentação sua na televisão local, realizando uma apreciação estatística de três pinturas de Rembrandt. Submetidas a um processo de mensuração por retícula, foram extraídas das obras o grau de distribuição do claro e escuro para o cálculo matemático da entropia. Despertou, é claro, a mais alta e estimulante polêmica.

Este modo de encarar a arte tem encontrado ferrenhos opositores. No entanto, basicamente a posição de encontrar um pressuposto racionalista para arte também tem estimulado os pesquisadores. A Unicamp, uma das mais conceituadas universidades do país, recentemente instituiu, como base de pesquisa em seus cursos de pós-graduação em arte, a tentativa de uma união entre a arte e a ciência.

Ao afirmar - em entrevista concedida a Haroldo de Campos - "o problema está em saber se as artes e a poesia saberão encontrar métodos intelectuais ou maquinais para a realização de estados estéticos originais e inovadores. Trata-se de alcançar uma nova forma de fantasia racional" Max Bense se colocava como um dos precursores desta tendência atual de compreensão do fenômeno artístico.

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Dados da publicação

Escrito por João Werner, publicado naFolha de Londrina, Caderno 2, 03/02/1990, pp. 17.

Fortuna crítica deste texto

2009, setembro 03 - Meu ensaio "A estética de Max Bense" foi republicado no blog Estética de rodoviária, de Carla M Magalhães.

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