"A estética do irregular"

de João Werner

Capa do livro Ensaios

Este ensaio foi publicado no livro "Ensaios sobre Arte e Estética", de João Werner, junto com mais outros 16 ensaios.

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Há muito tempo, temos dividido, em nossos pensamentos, o mundo em dois lados. Dividimos todas as coisas, por exemplo, entre aquelas que dependem do homem para existir e as que dele são completamente independentes.

Acompanhando esta ideia, por vários séculos temos colocado de um lado a natureza e, de outro, a cultura, separando o natural do artificial, o caótico (indeterminável) do ordenado.

Esta é uma divisão preponderante dentro do pensamento ocidental. Todos aqueles que tentaram explicar o mundo, inclusive os que se dedicaram às artes, utilizaram-se desta dualidade.

Desde os tempos gregos, o belo era confinado a um dos lados desta dualidade. O belo foi associado à ordem, à harmonia, ao equilíbrio e segue, desde então, esta orientação geral na estética.

Este tipo de entendimento, levado adiante, acabou por produzir uma questão paralela, fundamental para a estética, e que praticamente não foi resolvida até a idade moderna: há ou não um belo natural? É claro, todos sabemos que a natureza não se submete à ordem com facilidade. Entretanto, raros são os que duvidam que as coisas naturais são belas. Como resolver esse impasse?

Enquanto nós pensávamos que a natureza era um relógio em funcionamento, em que as esferas celestes e os seres da terra seguiam um organizado plano divino, pleno de ordem, tudo ia bem. Quando a teoria da evolução darwiniana e a nova física das partículas mostraram que há um elemento irredutível de indeterminação no mundo, tudo se transformou.

As novas descobertas da ciência mostravam que o caos e a possibilidade eram válidos para entender o mundo natural tanto quanto a ordem e a necessidade. Estas ideias repercutiram fortemente em toda a cultura, inclusive no campo de estética e da arte.

Para um exemplo, basta lembrar que no mesmo período em que eram divulgadas as novas descobertas da física quântica, na arte eram propostas novas linguagens artísticas, especialmente o Cubismo.

Aquelas novas linguagens artísticas, bem como as novas ideias estéticas, buscavam adequar-se ao novo mundo que se abria.

O belo: ordem e caos

Uma das proposições da estética moderna, pensada a partir daquelas novas descobertas, é a de que pode existir uma forte atração em nós pelo que é irregular, pelo que é complexo. Percebeu-se que somos atraídos esteticamente não só pela beleza ordenada e harmônica mas, também, pelas coisas que são complexas, intrincadas e múltiplas.

Atentou-se para o fato de que há um sentimento intenso diante da diferença, do caótico, da inconstância. Deveria ser formulada uma estética que tratasse desta empatia que podemos ter para com o disforme.

Essa estética certamente não é de cunho clássico. Na verdade, ela amplia a tradicional ideia da estética como o estudo do belo ordenado. Abarca também o erótico sentimento despertado pelo que não é ordenado, o fascínio pela irregularidade.

Nesta perspectiva, a estética assume que a origem do sentido no mundo não é ordenada, determinada e imutável, mas que provém do reino do possível. Ela é essencialmente aberta à possibilidade de novas ordenações, de novos fazeres e de novos significados.

Essa origem indeterminada do sentido é tão “real” quanto a ordem que o ser humano encontra no mundo. Nós imprimimos um sentido ao mundo, dando-lhe vários significados, paralelos aos significados que possa ter em si próprio.

A natureza é a primeira fonte destes sentimentos de atração pelo complexo. O homem primitivo tinha um misto de identificação e temor pelo natural, isto é, se, por um lado, os primitivos temiam os cataclismos naturais a que estavam expostos, por outro, todos os primeiros cultos religiosos eram animistas, adorando o sol, o raio, o trovão etc. Nossos ancestrais tinham um temor misturado à fascinação pelo poder da natureza selvagem.

O sentimento estético provocado pela complexidade natural tem uma origem anterior ao sentimento estético provocado pela ordem. Afinal, foi muito posteriormente à sua presença na terra que o homem pode admirar-se, de forma profunda, da regularidade que podia impor ao real, através do arar da terra, da domesticação de animais, da produção da cerâmica que ordenava o barro, da cestaria que ordenava o vime, da semeadura que ordenava a natureza.

Parte II

A natureza é a fonte perene dos sentimentos de atração pelo que é irregular. Desde épocas primitivas, sentimos um misto de identificação e temor pelo natural.

A natureza envolvia, alimentava e oferecia, mas, ao mesmo tempo, amedrontava com cataclismos e predação.

Suas dimensões experienciáveis transcendiam em muito a capacidade de apreensão do ser humano.

Na história do pensamento estético, tais sentimentos se refletiram na ideia estética do sublime. Este é um conceito estético que dá conta da atração exercida sobre nós por aquilo que nos transcende, pelo que extrapola em complexidade nossa percepção cotidiana.

A união empática do indivíduo com uma complexidade maior do que si, provoca neste indivíduo o temor da autodissolução. Nossa articulação psicológica, limitada por natureza ao nosso eu consciente, teme diluir-se ou desintegrar-se diante do todo maior e mais complexo da natureza.

Graus de acaso, graus de organização

Acaso e ordem, enquanto conceitos estéticos, não se anulam mutuamente, não são exclusivos. Criam dois polos de atração, diluem-se um no outro criando graus variados onde gravitam as nossas experiências do dia-a-dia.

De todas as inúmeras experiências possíveis que teríamos, nossas expectativas atuam como um "filtro seletor", reduzindo todos os acasos do dia-a-dia àquilo nosso conhecido. É uma necessidade vital nossa que haja uma regularidade nos acontecimentos, isto é, temos a necessidade de padrões de coerência existencial, e isto desde a vida biológica mais primitiva à vivência social mais sofisticada.

Toda vez que o acaso rompe o círculo fechado das nossas expectativas, quando se intromete em nossas vidas o inesperado, quando acontece algo que não “estava nos planos", há uma situação de temor, temos uma necessidade quase instintiva de voltar para o plano do conhecido.

Aproximar-se do acaso, reduzindo a intensidade de nossas expectativas, é uma situação angustiante, a qual contrariaria as nossas mais simples necessidades.

A atividade artística é, ao contrário, um rumar deliberado em direção ao caos.

Sentido nas possibilidades

O processo criativo é um processo de encontrar novos sentidos.

A obra de arte é a ordenação do caos através da beleza, é a mediação entre as muitas possibilidades do acaso e a ordem constitutiva da cultura.

A obra de arte realiza ambos, caos e ordem. É caos porque está sempre a suscitar novos significados em sua apreciação, e é ordem enquanto necessita de um elemento conhecido para realizar a comunicação, um elemento que permita um trânsito para com quem a admira.

Arte não é expressão de alguma individualidade, como quer o subjetivismo, nem é mero exercício técnico. Arte é criar hábitos de sonhos, hábitos de sentimento. É abrir um novo universo para a experiência, não um universo particular, mas um que possa ser vivido por quem dele se aproximar.

Socialmente, podemos manter um sem-número de outras atividades plásticas, sejam elas decorativas, terapêuticas ou apenas prazerosas mas, exigir menos da arte do que indicar novos sentidos para a existência, é perder dela o principal.

O artista retorna do caos com as mãos cheias de sentido, e é nisso que a sua obra obtém significação. Não porque exprima algumas idiossincrasias pessoais, mas porque sua ação artística dá novos sentidos ao caos aberto da experiência de todas as outras pessoas.

Dados da publicação

Parte I, escrito por João Werner, publicado na Folha de Londrina, Caderno 2, 04/08/1991, pp. 8
Parte II, escrito por João Werner, publicado na Folha de Londrina, Caderno 2, 15/08/1991, pp. 4

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