"A relação entre arte e técnica", por João Werner

Na sua relação com a natureza, o ser humano tem transformado e interferido com o natural através da utilização da técnica. Todo o desenvolvimento da cultura tem-se dado pela mediação de procedimentos técnicos.

No domínio do fogo, nas primeiras semeaduras, no desenvolvimento da metalurgia, da cestaria ou da cerâmica, o conhecimento da maneira de produzir algo era passado de geração a geração, preservado como um patrimônio precioso.

Esses conhecimentos, no princípio, eram quase que confundidos com os processos e rituais que formavam a sociedade primitiva. Se a semeadura era realizada nas épocas das chuvas, a garantia da boa colheita era obtida pelo sacrifício ao deus do cereal.

Deste fundo comum de magia e tecnologia, lentamente se destacaram algumas técnicas que, ao contrário das práticas mágicas, podiam-se autocorrigir. Algumas técnicas se aperfeiçoaram, outras se mantiveram intactas, atravessando séculos sem grandes transformações.

A arte, como técnica produtora de símbolos de comunicação estética, foi considerada na fronteira entre as técnicas que se podiam aprimorar e as que, pela própria natureza, permaneciam imutáveis. Esta situação ambígua tornou-se preponderante na época moderna.

Arte, fronteira da técnica

Como uma das técnicas responsáveis pela produção da realidade humana, sociocultural, atuante entre diversos sistemas de crenças, a arte, quando tende para um essencialismo tende, simultaneamente, para desprezar a autocorreção de suas ações.

O desprezo pelo desenvolvimento técnico tinha, por exemplo, o romantismo que, tendo a arte como expressão do Absoluto, via na técnica apenas um estorvo a mais para a criatividade espontânea.

Contrariamente a esta posição, a arte, quando tende para a materialidade da vida e das relações sociais, tende a supervalorizar o emprego e o papel dos procedimentos técnicos.

Concordando com estes últimos, na verdade, a técnica com que é realizada a arte é um dos mais importantes aspectos de sua existência, tão importante que torna-se difícil, senão impossível, separar a produção artística de sua produção técnica. E, por mais que se queira ver na a arte uma possível essência "inefável", qualquer avanço das técnicas autocorretivas artísticas traz um avanço concomitante na produção estética.

Técnicas artísticas

Para termos alguns exemplos, basta nos lembrarmos do impressionante desenvolvimento dado pela fundição de ferro em substituição ao bronze na arte da escultura. A rocha dura, granítica, passou a resistir menos aos golpes do escultor provido de cinzéis de aço, permitindo, concomitantemente, uma ousadia maior na criação de esculturas.

Noutro exemplo, podemos apontar, no início do Renascimento, o desenvolvimento das tintas com solventes de emulsão oleosa, principalmente a linhaça, ao invés dos solventes de claras e gemas de ovos, como era usada na têmpera medieval. Este desenvolvimento técnico permitiu um trabalho de acabamento completamente diferenciado na pintura, possibilitando a assunção de novas e originais estética e linguagem artística.

Compre o livro que contém este e outros ensaios sobre arte e estética

logo Itunes
Versão IPAD
U$ 1,99
logo Amazon
Versão Kindle
R$ 6,37
logo Saraiva
Versão EPUB
R$ 2,99
capa do livro
Livro impresso
R$ 30,00

Dados da publicação

Escrito por João Werner, publicado na Folha de Londrina, Caderno 2, 12/09/1991, pp. 4.

Outros textos de João Werner sobre arte e estética