João Werner

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'A arte e o abstracionismo'

Parte I

A arte abstrata é uma grande polêmica entre artistas, críticos e historiadores. A questão de saber o que é abstracionismo, como pode ser apreendido esteticamente ou, até mesmo, se pode o abstracionismo ser artístico, tem sido centro de inúmeros debates.

A arte abstrata pode ser pensada como um estilo, entre outros diversos, dentro da história da arte. Como estilo, foi retomada a partir da modernidade inicialmente com cubistas e futuristas disseminando-se, a partir de então, em diversas outras tendências artísticas, formais (que prezam a articulação inerente à obra) ou informais (cuja intenção é a desarticulação interna da obra).

Como abstracionistas formais teríamos o Neoplasticismo, o Construtivismo etc.

Exemplos do abstracionismo informal teríamos a Action Painting, o Tachismo, o Neo-Expressionismo etc.

A retomada do estilo abstrato nos primeiros anos do século, teve uma dupla origem. Por um lado, foi fruto das novas experiências estéticas exigidas pela modernidade econômica e social na Europa. Por outro lado, o estilo abstrato foi retomado porque prestava-se, como 'novidade', às intenções vanguardistas de alguns movimentos artísticos.

Neste segundo sentido, vanguardista, a arte abstrata foi retomada porque representava, para a época, um 'estar à frente do tempo'. Dado que, desde antes da Renascença, nenhuma tradição artística européia podia assumir ser a origem do abstracionismo artístico, este estilo dava a nítida impressão a todos de uma ruptura com aquelas tradições.

Esta intenção de colocar o abstracionismo no epicentro de um movimento social e político de ruptura, especialmente levado a cabo por abstracionistas informais, revelou-se despropositada.

Como estilo artístico, o abstracionismo é quase tão antigo no tempo como a sua antítese, o naturalismo. Se, na pré-história, toda a arte do período paleolítico foi de um naturalismo vigoroso, no neolítico, ao contrário, a linguagem artística usual era o abstracionismo.

Nos desenhos rupestres neolíticos, no uso das técnicas da cestaria ou da cerâmica, está atestada uma origem para o estilo abstrato. Cai por terra a idéia de uma 'novidade' no ressurgimento do estilo abstrato na modernidade.

Abstração e estética

 Se tomarmos o estilo abstrato, entretanto, no seu aspecto positivo na modernidade, desenvolvido principalmente pelos abstracionistas formais, e que consistia em uma resposta às novas experiências coletivas, é possível então situar e entender não somente a arte abstrata contemporânea, como delimitar a verdadeira esfera do abstracionismo inerente à arte.

Não tomarmos o abstracionismo apenas enquanto estilo artístico, entre outros, mas em relacioná-lo à experiência vivencial, não só no tempo presente mas no tempo passado também. A própria constatação de que o abstracionismo surge como estilo em diversos períodos históricos, leva-nos a supor que as suas características são muito mais gerais do que particulares, muito mais comuns a vários períodos do que restritas a este ou aquele específico.

A tese que se coloca é a de que o abstracionismo é, na verdade, uma autêntica categoria de experiência estética. O abstracionismo seria uma forma de experiência, qual seja, uma maneira que tem o sujeito de experimentar o real.

Se concordamos em que, genericamente, nosso trânsito com o real dá-se na experiência, ou por aproximação ou por distanciamento (não físico mas psíquico), então podemos situar o abstracionismo como uma categoria estética. Se por aproximação entendermos toda forma de experiência que se constitua pela empatia com o objeto, então o distanciamento seria toda forma de experiência que visa a um deslocamento, a uma transcendência dos objetos.

A categoria abstrata, em arte, seria caracterizada pela representação que não tivesse, por experiência psíquica, uma necessidade de apropriação ou envolvimento com objetos particulares. Essa categoria abstrata buscaria, pelo distanciamento ao real, uma universalização da linguagem artística.

É possível perceber, mesmo ainda sem exemplos ilustrativos de obras de arte, que essa categoria abstracionista seria uma descrição, particularizada na experiência estética artística, do processo abstrativo geral da cultura que, em um amplo quadro histórico, conduziu às formulações de uma religião transcendental monoteísta em oposição aos mitos animistas anteriores, a um processo de investigação pelo pensamento em oposição às práticas mágicas anteriores etc.

Parte II

O abstracionismo, em arte, não deve ser entendido apenas como um estilo artístico entre outros estilos. Limitar o abstrato à ocorrência neste ou naquele período da história da arte, na produção deste ou daquele artista, é perder o principal para a sua correta caracterização.

Antes de ser apenas um estilo, o abstracionismo é uma forma de experimentar o real. Dentro das formas de observação ou apreensão dos objetos do mundo, o abstracionismo revela-se uma autêntica categoria estética, a servir de referência para uma mais profunda fruição da arte.

Na experiência, do ponto de vista da relação com os objetos, o abstracionismo dá conta do possível distanciamento psíquico que sente o artista em sua produção. Do temor, da constante intenção de transcendência ao fluxo do real. Coloca-se, desta forma, em oposição ao naturalismo, cuja base na experiência psíquica dá-se pela aproximação com o objeto, à empatia, ao envolvimento.

Ao chamarmos o abstracionismo uma categoria, não significa que ele se identifique com a definição kantiana do a priori puro. O abstracionismo não é uma forma dada anteriormente, sobre a qual é possível meditar-se sem qualquer relação ao real. Depende, ao contrário, inteiramente de um contato com o mundo da experiência; forja-se, o abstracionismo, diretamente sobre a vivência humana.

Por outro lado, não há coincidência entre o abstracionismo como categoria estética e o progressivo distanciamento entre o sensível e o racional, formulado por Hegel. Primeiro porque esta categoria abstrata é uma forma dada já na apreensão do objeto, portanto não necessariamente distante do sensível. Segundo, porque o distanciamento do real na experiência faz-se não em direção a uma análise (racional) logocêntrica, mas em direção à síntese plástica.

Camponês e marinheiro

Um exemplo desta distinção entre categorias estéticas, abstrativa e naturalista, é possível encontrar em Walter Benjamim. Quando o autor descreve, em um de seus livros, os dois tipos básicos de narrador, o camponês e o marinheiro, temos uma analogia com as duas categorias estéticas principais.

O camponês, cuja vida transcorreu totalmente em um mesmo local, conhece deste local toda a sua história. Viu as crianças crescerem, viu as boas e as más colheitas, viu os que se foram. Tem, com esse local, uma identidade completa. A proximidade dele com os fatos faz com que sua narração transmita suas tradições, seus costumes. A experiência deste narrador, transmitida por suas estórias, é de natureza empática, insere-se na categoria estética naturalista.

O marinheiro, ao contrário, tem sua vida transcorrendo em muitos locais diferentes. Sua narratividade traz aos ouvintes os fatos distantes não no tempo, como o camponês, mas, sim, distantes no espaço. Sua experiência não é contígua, unitária, mas a articulação das múltiplas vivências. A narração do marinheiro funda-se sobre a possibilidade de transcendência dos fatos isolados. Sua narração é um exemplo de narratividade abstrata.

Benjamim não formulou estes tipos de narradores ideais em atenção a estas duas formulação da estética abstrativa, mas suas formulações permitem tal analogia. É, inclusive, pertinente a mostras de que a categoria abstrativa é próxima a experiências possíveis, não distante e algo sem vida, ou meramente assentado sobre racionalizações vazias.

O abstracionismo e o estilo

Ao retornarmos à questão do estilo, após esta colocação do abstracionismo como uma autêntica categoria estética, é possível obter muitas luzes na análise das obras de arte. Diversamente de agrupar as obras apenas enquanto tem esta ou aquela aparência, pode-se buscar uma abordagem mais profunda, que saliente as raízes destes estilos na experiência vivencial com que foram produzidos.

É possível entender certas 'anomalias' estilísticas, que ficariam não compreendidas se apelássemos para distinções superficiais. O estilo pontilhista, por exemplo, que superficialmente é figurativo, tem a abstração como concepção estética produtora. Contrariamente, a catedral gótica, que é abstrata na aparência e na construção, exige uma aproximação estética empática. Estes exemplos mostram como as categorias podem se relacionar complexamente com os estilos.

Por outro lado, é possível compreender o verdadeiro lugar do surgimento da abstração contemporânea: ao invés de apenas um modismo, como muitas vezes tem sido encarada por artistas e críticos, a abstração vem dar resposta às novas formas de experiência trazidas pela Revolução Industrial e pela Revolução da Informação.

Dados das publicações

Parte I, publicada na Folha de Londrina, Caderno 2, 25/04/1991, pp. 4

Parte II, publicada na Folha de Londrina, Caderno 2, 09/05/1991, pp. 4

As obras de arte expostas aqui são de autoria de João Werner. O uso destas imagens, com baixa resolução, é gratuito. Basta, apenas, citar a autoria.

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