|
site publicado
desde 22/09/2003
*** 6 anos online
***
|

Diga sim ao Artista
e NÃO à indústria cultural |
| |
'A arte e o abstracionismo'
Parte I
A arte abstrata é uma grande polêmica
entre artistas, críticos e historiadores. A
questão de saber o que é abstracionismo, como
pode ser apreendido esteticamente ou, até mesmo,
se pode o abstracionismo ser artístico, tem sido
centro de inúmeros debates.
A arte abstrata pode ser pensada como
um estilo, entre outros diversos, dentro da
história da arte. Como estilo, foi retomada a
partir da modernidade inicialmente com cubistas
e futuristas disseminando-se, a partir de então,
em diversas outras tendências artísticas,
formais (que prezam a articulação inerente à
obra) ou informais (cuja intenção é a
desarticulação interna da obra).
Como abstracionistas formais teríamos o
Neoplasticismo, o Construtivismo etc.
Exemplos do abstracionismo informal teríamos a
Action Painting, o Tachismo, o
Neo-Expressionismo etc.
A retomada do estilo abstrato nos
primeiros anos do século, teve uma dupla origem.
Por um lado, foi fruto das novas experiências
estéticas exigidas pela modernidade econômica e
social na Europa. Por outro lado, o estilo
abstrato foi retomado porque prestava-se, como
'novidade', às intenções vanguardistas de alguns
movimentos artísticos.
Neste segundo sentido, vanguardista,
a arte abstrata foi retomada porque
representava, para a época, um 'estar à frente
do tempo'. Dado que, desde antes da Renascença,
nenhuma tradição artística européia podia
assumir ser a origem do abstracionismo
artístico, este estilo dava a nítida impressão a
todos de uma ruptura
com aquelas tradições.
Esta intenção de colocar o
abstracionismo no epicentro de um movimento
social e político de ruptura, especialmente
levado a cabo por abstracionistas informais,
revelou-se despropositada.
Como estilo artístico, o
abstracionismo é quase tão antigo no tempo como
a sua antítese, o naturalismo. Se, na
pré-história, toda a arte do período paleolítico
foi de um naturalismo vigoroso, no neolítico, ao
contrário, a linguagem artística usual era o
abstracionismo.
Nos desenhos rupestres neolíticos, no
uso das técnicas da cestaria ou da cerâmica,
está atestada uma origem para o estilo abstrato.
Cai por terra a idéia de uma 'novidade' no
ressurgimento do estilo abstrato na modernidade.
Abstração e estética
Se tomarmos o estilo abstrato, entretanto, no
seu aspecto positivo na modernidade,
desenvolvido principalmente pelos
abstracionistas formais, e que consistia em uma
resposta às novas experiências coletivas, é
possível então situar e entender não somente a
arte abstrata contemporânea, como delimitar a
verdadeira esfera do abstracionismo inerente à
arte.
Não tomarmos o abstracionismo apenas
enquanto estilo artístico, entre outros, mas em
relacioná-lo à experiência vivencial, não só no
tempo presente mas no tempo passado também. A
própria constatação de que o abstracionismo
surge como estilo em diversos períodos
históricos, leva-nos a supor que as suas
características são muito mais gerais do que
particulares, muito mais comuns a vários
períodos do que restritas a este ou aquele
específico.
A tese que se coloca é a de que o
abstracionismo é, na verdade, uma autêntica
categoria de experiência estética. O
abstracionismo seria uma forma de experiência,
qual seja, uma maneira que tem o sujeito de
experimentar o real.
Se concordamos em que, genericamente,
nosso trânsito com o real dá-se na experiência,
ou por aproximação
ou por distanciamento
(não físico mas psíquico), então podemos
situar o abstracionismo como uma categoria
estética. Se por aproximação entendermos toda
forma de experiência que se constitua pela
empatia com o objeto, então o distanciamento
seria toda forma de experiência que visa a um
deslocamento, a uma transcendência dos objetos.
A categoria abstrata, em arte, seria
caracterizada pela representação que não
tivesse, por experiência psíquica, uma
necessidade de apropriação ou envolvimento com
objetos particulares. Essa categoria abstrata
buscaria, pelo distanciamento ao real, uma
universalização da linguagem artística.
É possível perceber, mesmo ainda sem
exemplos ilustrativos de obras de arte, que essa
categoria abstracionista seria uma descrição,
particularizada na experiência estética
artística, do processo abstrativo geral da
cultura que, em um amplo quadro histórico,
conduziu às formulações de uma religião
transcendental monoteísta em oposição aos mitos
animistas anteriores, a um processo de
investigação pelo pensamento em oposição às
práticas mágicas anteriores etc.
Parte II
O abstracionismo, em arte, não deve
ser entendido apenas como um estilo artístico
entre outros estilos. Limitar o abstrato à
ocorrência neste ou naquele período da história
da arte, na produção deste ou daquele artista, é
perder o principal para a sua correta
caracterização.
Antes de ser apenas um estilo, o
abstracionismo é uma forma de experimentar o
real. Dentro das formas de observação ou
apreensão dos objetos do mundo, o abstracionismo
revela-se uma autêntica categoria
estética, a servir de referência para uma mais
profunda fruição da arte.
Na experiência, do ponto de vista da
relação com os objetos, o abstracionismo dá
conta do possível distanciamento psíquico que
sente o artista em sua produção. Do temor, da
constante intenção de transcendência ao fluxo do
real. Coloca-se, desta forma, em oposição ao
naturalismo, cuja base na experiência
psíquica dá-se pela aproximação com o objeto, à
empatia, ao envolvimento.
Ao chamarmos o abstracionismo uma
categoria, não significa que ele se identifique
com a definição kantiana do a priori
puro. O abstracionismo não é uma forma dada
anteriormente, sobre a qual é possível
meditar-se sem qualquer relação ao real.
Depende, ao contrário, inteiramente de um
contato com o mundo da experiência; forja-se, o
abstracionismo, diretamente sobre a vivência
humana.
Por outro lado, não há coincidência
entre o abstracionismo como categoria estética e
o progressivo distanciamento entre o sensível e
o racional, formulado por Hegel. Primeiro porque
esta categoria abstrata é uma forma dada já na
apreensão do objeto, portanto não
necessariamente distante do sensível. Segundo,
porque o distanciamento do real na experiência
faz-se não em direção a uma análise
(racional) logocêntrica, mas em direção à
síntese
plástica.
Camponês e
marinheiro
Um exemplo desta distinção entre
categorias estéticas, abstrativa e naturalista,
é possível encontrar em Walter Benjamim. Quando
o autor descreve, em um de seus livros, os dois
tipos básicos de narrador, o camponês
e o marinheiro, temos uma analogia com as
duas categorias estéticas principais.
O camponês, cuja vida transcorreu
totalmente em um mesmo local, conhece deste
local toda a sua história. Viu as crianças
crescerem, viu as boas e as más colheitas, viu
os que se foram. Tem, com esse local, uma
identidade completa. A proximidade dele com os
fatos faz com que sua narração transmita suas
tradições, seus costumes. A experiência deste
narrador, transmitida por suas estórias, é de
natureza empática, insere-se na categoria
estética naturalista.
O marinheiro, ao contrário, tem sua
vida transcorrendo em muitos locais diferentes.
Sua narratividade traz aos ouvintes os fatos
distantes não no tempo, como o camponês, mas,
sim, distantes no espaço. Sua experiência não é
contígua, unitária, mas a articulação das
múltiplas vivências. A narração do marinheiro
funda-se sobre a possibilidade de transcendência
dos fatos isolados. Sua narração é um exemplo de
narratividade abstrata.
Benjamim não formulou estes tipos de
narradores ideais em atenção a estas duas
formulação da estética abstrativa, mas suas
formulações permitem tal analogia. É, inclusive,
pertinente a mostras de que a categoria
abstrativa é próxima a experiências possíveis,
não distante e algo sem vida, ou meramente
assentado sobre racionalizações vazias.
O abstracionismo
e o estilo
Ao retornarmos à questão do estilo,
após esta colocação do abstracionismo como uma
autêntica categoria estética, é possível obter
muitas luzes na análise das obras de arte.
Diversamente de agrupar as obras apenas enquanto
tem esta ou aquela aparência, pode-se buscar uma
abordagem mais profunda, que saliente as raízes
destes estilos na experiência vivencial com que
foram produzidos.
É possível entender certas
'anomalias' estilísticas, que ficariam não
compreendidas se apelássemos para distinções
superficiais. O estilo pontilhista, por exemplo,
que superficialmente é figurativo, tem a
abstração como concepção estética produtora.
Contrariamente, a catedral gótica, que é
abstrata na aparência e na construção, exige uma
aproximação estética empática. Estes exemplos
mostram como as categorias podem se relacionar
complexamente com os estilos.
Por outro lado, é possível
compreender o verdadeiro lugar do surgimento da
abstração contemporânea: ao invés de apenas um
modismo, como muitas vezes tem sido encarada por
artistas e críticos, a abstração vem dar
resposta às novas formas de experiência trazidas
pela Revolução Industrial e pela Revolução da
Informação.
Dados das publicações
Parte I,
publicada na Folha de Londrina,
Caderno 2, 25/04/1991, pp. 4
Parte II, publicada
na Folha de Londrina, Caderno 2,
09/05/1991, pp. 4
|