"Arte e o abstracionismo"

de João Werner

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Este ensaio foi publicado no livro "Ensaios sobre Arte e Estética", de João Werner, junto com mais outros 16 ensaios.

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A arte abstrata é responsável por grande polêmica entre artistas, críticos e historiadores. As questões de saber o que é abstracionismo, como pode ser apreendido esteticamente ou, até mesmo, se pode o abstracionismo ser artístico, tem sido o centro de inúmeros debates.

A arte abstrata pode ser pensada como um estilo, entre outros estilos diversos, dentro da história da arte. Como estilo, foi retomada a partir da modernidade, inicialmente com cubistas e futuristas, e disseminando-se, a partir de então, em diversas outras tendências artísticas, sejam elas formais (que prezam a articulação inerente à obra) ou informais (cuja intenção é a desarticulação interna da obra).

Como abstracionistas formais poderíamos apontar os movimentos artísticos do Neoplasticismo e do Construtivismo, entre outros. Como exemplos do abstracionismo informal teríamos a Action Painting, o Tachismo e o Neoexpressionismo.

A retomada do estilo abstrato nos primeiros anos do século XX teve uma dupla origem. Por um lado, foi fruto das novas experiências estéticas experimentadas pela modernidade econômica e social da Europa de então. Por outro lado, o estilo abstrato foi retomado porque prestava-se, como “novidade”, às intenções vanguardistas de alguns movimentos artísticos.

Neste segundo sentido, vanguardista, a arte abstrata foi retomada porque representava, para a época, um “estar à frente do tempo”. Dado que, desde antes da Renascença, nenhuma tradição artística europeia podia assumir ser a origem do abstracionismo artístico, este estilo dava a nítida impressão a todos de ser uma ruptura radical com as tradições figurativas da arte europeia.

A intenção de colocar o abstracionismo como o epicentro de um movimento social e político de ruptura, especialmente levado a cabo por abstracionistas informais, revelou-se exagerada.

Como estilo artístico, o abstracionismo é quase tão antigo no tempo como a sua antítese, o naturalismo. Se, na pré-história, toda a arte do período paleolítico foi de um naturalismo vigoroso, no neolítico, ao contrário, a linguagem artística usual era o abstracionismo. Nos desenhos rupestres neolíticos, no uso das técnicas da cestaria ou da cerâmica, está atestada uma origem para o estilo abstrato. Cai por terra a ideia de “novidade” no ressurgimento do estilo abstrato na modernidade.

Abstração e estética

Se tomarmos o estilo abstrato, entretanto, no seu aspecto especular da experiência estética da modernidade, desenvolvido principalmente pelos abstracionistas formais, e que consistia em uma resposta às novas vivências sociais da época, é possível então situar e entender não somente a arte abstrata contemporânea mas como, também, delimitar a verdadeira esfera do abstracionismo inerente à arte.

Para tanto, não podemos tomar o abstracionismo apenas enquanto um estilo artístico entre outros mas, sim, devemos verificar a sua relação com a experiência vivencial, não apenas no tempo presente mas no tempo passado também. A própria constatação de que o abstracionismo surge como estilo em diversos períodos históricos, leva-nos a supor que as suas características são muito mais gerais do que particulares, muito mais comuns a vários períodos do que restritas a este ou aquele específico.

A tese que se coloca é a de que o abstracionismo é, na verdade, uma autêntica categoria de experiência estética. O abstracionismo seria uma forma de apreensão da realidade, isto é, uma maneira que teriam os sujeitos de experimentar esteticamente o real.

Se concordarmos em que, genericamente, nosso trânsito com o real dá-se ou por uma aproximação ou por um distanciamento (não físico apenas mas, principalmente, psíquico), então podemos situar o abstracionismo como uma categoria estética. Por aproximação, entendemos toda a forma de experiência humana que se constitua pela empatia com o objeto. Por distanciamento ao contrário, entendemos toda a forma de experiência que visa a um deslocamento ou a uma transcendência dos objetos.

A categoria abstrata, em arte, seria caracterizada pela representação que não tivesse, como fundo psíquico, uma necessidade de apropriação ou de envolvimento com objetos particulares. Essa categoria abstrata buscaria, pela sua proposta de distanciamento ao real, uma universalização da linguagem artística.

Esta é uma tese que foi desenvolvida principalmente pelo historiador alemão Wilhelm Worringer, com o seu importante livro "Abstração e natureza".

É possível perceber que, mesmo ainda sem exemplos ilustrativos de obras de arte, essa categoria abstracionista seria uma descrição, particularizada na experiência estética artística, do processo abstrativo geral da cultura que, em um amplo quadro histórico, conduziu às formulações de, por exemplo, uma religião transcendental monoteísta em oposição aos mitos animistas ou, em outro exemplo, a um processo de investigação pelo pensamento em oposição às práticas mágicas anteriores etc.

Parte II

Ao chamarmos o abstracionismo de uma categoria estética, não significa que ele se identifique com a definição kantiana do a priori puro. O abstracionismo não é uma forma dada previamente, sobre a qual é possível meditar sem qualquer relação ao real. Depende, ao contrário, inteiramente de um contato com o mundo da experiência; forja-se, o abstracionismo, diretamente sobre a vivência humana.

Por outro lado, não há coincidência entre o abstracionismo como categoria estética e o progressivo distanciamento entre o sensível e o racional, formulado por Hegel. Primeiro porque esta categoria abstrata é uma forma dada já na apreensão do objeto, portanto não necessariamente distante do sensível. Segundo, porque o distanciamento do real na experiência faz-se não em direção a uma análise (racional) logocêntrica mas, sim, em direção à uma síntese plástica.

Camponês e marinheiro

Um exemplo desta distinção entre categorias estéticas, abstrativa e naturalista, é possível encontrar em Walter Benjamim. Quando o autor descreve, em um de seus livros, os dois tipos básicos de narrador, quais sejam, o camponês e o marinheiro, temos uma analogia com as duas categorias estéticas principais.

O camponês, cuja vida transcorreu totalmente em um mesmo local, conhece deste local toda a sua história. Viu as crianças crescerem, viu as boas e as más colheitas, viu os que se foram. Tem, com esse local, uma identidade completa. A proximidade dele com os fatos faz com que sua narração transmita suas tradições, seus costumes. A experiência deste narrador, transmitida por suas estórias, é de natureza empática, insere-se na categoria estética do naturalismo.

O marinheiro, ao contrário, tem sua vida transcorrendo em muitos locais diferentes. Sua narratividade traz aos ouvintes os fatos distantes não no tempo, como o camponês, mas, sim, distantes no espaço. Sua experiência não é contígua, unitária, mas é a articulação de múltiplas vivências. A narração do marinheiro funda-se sobre a possibilidade de transcendência dos fatos isolados. Sua narração é um exemplo de narratividade abstrata.

Benjamim não formulou estes tipos de narradores ideais em atenção a esta definição da estética abstrativa, mas suas formulações permitem tal analogia. É, inclusive, pertinente para mostrar que a categoria abstrativa é aproximada a experiências possíveis, não distante e algo sem vida ou meramente assentado sobre racionalizações vazias.

O abstracionismo e o estilo

Ao retornarmos à questão do estilo, após esta afirmação do abstracionismo como uma categoria estética geral, é possível obter muitas luzes na análise das obras de arte. Diversamente de agrupar as obras apenas enquanto tem esta ou aquela aparência, pode-se buscar uma abordagem mais profunda, que saliente as raízes destes estilos na experiência vivencial com que foram produzidos.

É possível entender certas “anomalias” estilísticas, que ficariam não compreendidas se apelássemos para distinções superficiais. O estilo pontilhista, por exemplo, que superficialmente é figurativo, tem a abstração como sua concepção estética originária. Contrariamente, a catedral gótica, que é abstrata na aparência e na construção, exige uma aproximação estética empática. Estes exemplos mostram como as categorias podem se relacionar complexamente com os estilos.

Por outro lado, é possível compreender o verdadeiro lugar do surgimento da abstração contemporânea: ao invés de apenas um modismo, como muitas vezes tem sido encarada por artistas e críticos, a abstração vem dar resposta às novas formas de experiência trazidas pela Revolução Industrial e pela Revolução da Informação.

Dados das publicações

Parte I, publicada na Folha de Londrina, Caderno 2, 25/04/1991, pp. 4
Parte II, publicada na Folha de Londrina, Caderno 2, 09/05/1991, pp. 4

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