"A arte conceitual"

de João Werner

Capa do livro Ensaios

Este ensaio foi publicado no livro "Ensaios sobre Arte e Estética", de João Werner, junto com mais outros 16 ensaios.

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A arte conceitual é o ápice do radicalismo da proposta estética da modernidade cultural. No que tem de ambígua, naquilo que comporta de dubiedades, a rápida e sinuosa trajetória de inovações e novidades da arte no século 20 concluiu-se, de certa forma, na arte conceitual.

O objeto estético, que na história da arte quase sempre havia coincidido com alguma corporificação material, na arte conceitual desmaterializa-se. Sem corporeidade física, o objeto estético da arte conceitual abre um vácuo simbólico, preenchido por outras instâncias da criação, em alguns casos revelando novas dimensões do fazer artístico.

Paradoxo da arte conceitual (como de resto da arte moderna) é a sua dupla condição de existência: por um lado é herdeira de uma secular sucessão de propostas estéticas, tais como o cubismo, o dadaísmo, land art, arte povera, etc. Por outro lado, nega a possibilidade da arte enquanto instituição sócio-cultural, enquanto tradição. Assume o ideário antiarte, contestatório, típico das décadas de 60 e 70.

Alguns antecedentes

Os grandes movimentos político-artísticos de meados do século 20 fornecem o pano de fundo para o surgimento da arte conceitual: George Maciunas e os grandes Happenings que organiza; Kaprow e as suas colagens de objetos, denominados environments.

A ideia de obra de arte, nestes Happenings, dissolve-se na ideia de ação estética. Os Happenings são grupos de pessoas agindo esteticamente; não há, então, "artista" como o concebemos tradicionalmente, nem qualquer monopólio na produção da arte.

Outra origem da arte conceitual serão os movimentos artísticos da land art e da arte povera. A land art contribuiu com a dissolução da distinção entre arte e natureza, entre o belo natural e o belo produtível. Obra de arte, na concepção dos land artistas, é o próprio locus físico, isto é, entendem a natureza como o próprio objeto artístico. A segunda, a arte povera, trabalha com o objeto encontrado, principalmente o escolho industrial, trapos, lixo, etc, dando-lhes feição estética.

A arte conceitual, herdeira implícita daquelas tendências, dará primazia não à obra de arte enquanto ser material, mas à concepção desta. Na arte conceitual, o espaço teórico toma à frente da práxis; se antes havia ainda qualquer preocupação quanto à presentidade da obra, na arte conceitual o objeto, quando também material, é um mero sustentáculo das relações estéticas pretendidas pelo artista. Pode-se afirmar que, na arte conceitual, é mais importante a teoria, as concepções intelectuais, do que a linguagem artística em si.

Irônicas intervenções

Não há na arte conceitual, como consequência, qualquer dos valores tradicionais da arte: nem domínio técnico, por exemplo, nem, muitas vezes, resultados estéticos. A obra conceitual pode repercutir apenas no plano social (muitas vezes contestatório), no plano intrassubjetivo (psicológico, e com intenções liberalizantes), ou no plano intra-artístico (com intenções metacríticas).

Como exemplo, citamos o artista Piero Manzoni, italiano, que em 1961 criou a “Escultura Viva”, grupos de pessoas que foram "assinadas" pelo artista, recebendo certificado de autenticidade, tornando-se, a partir de então, obras de arte.

De Manzoni são, também, os “Excrementos de Artista”: noventa latas contendo trinta gramas cada, rapidamente comercializadas em galerias europeias.

Outro exemplo, menos escatológico, é visto na obra do artista holandês Boezem, que em 1969 realizou sua obra conceitual sobre os céus de Amsterdã: com um avião a reação, escreveu seu nome com fumaça sobre a cidade, verdadeiramente assinando a paisagem.

Crítica e futilidade

Como é dependente de uma teoria filosófica robusta, isto é, de um bom conceito teórico original, o termo arte conceitual tornou-se quase que completamente sem significado atualmente. Com ideias filosóficas originárias menos sofisticadas, a arte conceitual acaba assemelhando-se a pueris gadgets, como se fora pequenos jogos de entretenimento.

O aspecto contestatório envolvido em sua gênese diluiu-se por completo contemporaneamente. Exatamente como ocorreu com outros movimentos artísticos contemporâneos (como o neoexpressionismo, por exemplo), as obras conceituais foram completamente assimiladas pelo establishment da arte. Muito embora, este destino "consumível" não tenha sido completo porque a precariedade da maioria dos produtos da arte conceitual não é muito bem vista pelo mercado.

Por outro lado, a infindável diversidade de suas manifestações necessitaria de uma segmentação do termo conceitual, um desdobramento em corolário. Não é possível agrupar, sob um mesmo guarda-chuva conceitual, todas e quaisquer brincadeiras pueris juntamente com obras mais inteligentes, não dá pra misturar obras balizadoras de novas direções de reflexão estética com quaisquer irresponsabilidades.

O criador de arte conceitual caminha sobre um sutil equilíbrio semântico, entre a inovação e a banalidade, entre o óbvio e a possibilidade de incompreensão do público. Mesmo que o artista conceitual consiga atravessar a barreira simbólica saturante que a mídia televisiva irradia diariamente, ainda enfrenta um grande desafio: dar à sua ideia um valor estético, sem o qual, seguramente, não a tornará lembrada quando se fala de arte.

Dados da publicação

Escrito por João Werner, publicado na Folha de Londrina, Caderno 2, 04/04/1991, pp. 4

Fortuna crítica deste artigo

2010, novembro 15 - Meu artigo "A arte conceitual" foi citado no blog "Living a Dream", ilustrando o post "Arte conceitual", de Raziel.

2010, outubro 18 - Meu ensaio "A arte conceitual" foi citado no ensaio de Mazé Leite, "A Realidade e o vôo de urubus conceituais", no site da Galeria Vermelho.
2010, abril 13 - Meu artigo 'Arte conceitual', publicado na Folha de Londrina, foi citado pela autora Fabiane Tamara Rossi, em seu artigo 'A Peleja da Matéria Desmaterializada: As tendências de Desmaterialização da Obra de Arte pelo Viés de "Bienal", de Zeca Baleiro', publicado no site 'história e-história', publicação do Grupo de Pesquisa Arqueologia história da Unicamp.

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