"Van Gogh e o signo da contrariedade"
Celebra-se no próximo dia 27, o centenário da morte de Vincent
Willian Van Gogh. Pintor e desenhista, Van Gogh compôs um dos mais importantes
conjuntos de obras plásticas do acervo da história das artes plásticas mundial.
Influenciou, direta ou indiretamente, a produção de sucessivas gerações de
artistas sendo que, pela tragicidade de sua existência, tornou-se, para todos os
que amam a arte, um modelo, espécie de paradigma de personalidade artística
criadora.
O signo matriz de seu ser no mundo é, seguramente, o signo da
contrariedade. Contrariadamente viveu, contrariadamente continua a existir sua
obra. De vida interior intensa e conturbada a ele foi impossível uma existência
regular, dentro de padrões.
Em sua atividade artística - tardia e extraordinariamente breve
(quando suicidou-se contava, apenas, 37 anos) - Van Gogh encontrou somente a
frustração e a indiferença entre seus contemporâneos.
Suas telas, se não eram destruídas ou vilipendiadas, eram guardadas, após sua
morte, em porões e depósitos como qualquer entulho.
Triste ironia quando, contemporaneamente, acompanhamos pelos
noticiários internacionais os leilões que se fazem de suas pinturas, as quais
batem todos os recordes de venda, pelo preço vultuoso que alcançam entre os
colecionadores.
Há, entre os que conhecem as artes plásticas, uma quase unanimidade positiva em
torno de seu nome. É um mito. O carisma comovente da intensa carga emotiva que
lhe corresponde envolve a inebria a todos.
Dele, como artista, ou de sua obra, já não se deve falar posto
que já ingressaram, indiscutivelmente, no rol dos tesouros da humanidade como a
formalização de um ápice que, culturalmente, irá compondo nossa consciência e
sensibilidade coletivas.
No entanto, no interior mesmo deste mundo objetivo da cultura
que suas pinturas integram, seu legado admite ser utilizado, como modelo ou
premissa, para a análise argumentativa de inúmeros problemas - sociais ou
estéticos - que envolvem a arte contemporaneamente.
Um dos mais prementes problemas da filosofia da arte (como, de
resto, em outros campos da cultura) que é o de estabelecer um recorte preciso
entre o subjetivo (estritamente pessoal) e o objetivo (coletivo) é claramente
perceptível na obra plástica de Van Gogh.
Outro problema, que é intensamente vivenciado pelo atormentado
pintor holandês, que é o da relação entre o gênio e a sociedade constituída,
pode esclarecer, como paradigma, problemas do âmbito da sociologia da arte.
Por estas relações fecundas é que sua obra pôde, atravessando
um século desde sua trágica morte, ajudar-nos a compreender e valorar melhor
nossas relações com a arte e, consequentemente, com nossa própria realidade
humana.
Dados da publicação
Escrito por João Werner, publicado na
Folha de Londrina, 19/07/1990, pp.
20, Folha 2. |