"A relação entre arte e técnica"
Na sua relação com a natureza, o ser humano tem transformado e
interferido com o natural através da utilização da técnica. Todo o
desenvolvimento da cultura tem-se dado pela meditação de procedimentos técnicos.
No domínio do fogo, nas primeiras semeaduras, no
desenvolvimento da metalurgia, da cestaria ou da cerâmica, o conhecimento da
maneira de produzir algo era passado de geração a geração, mantido como um
patrimônio precioso.
Esses conhecimentos, no princípio, eram quase que confundidos
com os processos e rituais que formavam a sociedade primitiva. Se a semeadura
era realizada nas épocas das chuvas, a garantia da boa colheita era obtida pelo
sacrifício ao deus do cereal.
Deste fundo comum de magia e tecnologia, lentamente se
destacaram algumas técnicas, que ao contrário das práticas mágicas, podiam-se
autocorrigir. Algumas técnicas se aperfeiçoaram, outras se mantiveram intactas,
atravessando séculos sem grandes transformações.
A arte, como técnica produtora de símbolos de comunicação
estética, foi considerada na fronteira entre as técnicas que se podiam aprimorar
e as que, pela própria natureza, permaneciam imutáveis. Esta situação ambígua
tornou-se preponderante na época moderna.
Arte Fronteira da técnica
Como uma das técnicas responsáveis pela produção da realidade
humana, sócio-cultural, atuante entre diversos sistemas de crenças, a arte,
quando tende para um essencialismo, tende simultaneamente para desprezar a
autocorreção de sua ação.
Este desprezo pelo desenvolvimento técnico tinham, por exemplo,
os românticos, que tendo a arte como expressão do Absoluto, viam na técnica
apenas um estorvo a mais para a criatividade espontânea.
Contrariamente a esta posição, a arte, quando tende para a
materialidade da vida e das relações sociais, tende a supervalorizar o emprego e
o papel dos procedimentos técnicos.
Concordando com estes últimos, na verdade, a técnica com que é
realizada a arte é um dos mais importantes aspectos de sua existência, tão
importante que torna-se difícil, senão impossível, separar produção estética de
técnica artística. E, por mais que se queira ver na a arte uma possível essência
"inefável", qualquer avanço das técnicas auto-corretivas traz um avanço
concomitante na produção estética.
Técnicas artísticas
Para termos alguns exemplos, basta lembrar do impressionante
desenvolvimento dado pela fundição de ferro em substituição ao bronze na arte da
escultura. A rocha dura, granítica, passou a resistir menos aos golpes do
escultor provido de cinzéis de aço, permitindo também uma ousadia maior na
criação.
Noutro exemplo, o desenvolvimento das tintas de emulsão oleosa
como solventes ao invés de ovos, como era usada na têmpera anterior. Este
desenvolvimento, nos princípios da Renascença, permitiu um trabalho de
acabamento completamente diferenciado na pintura.
Nem sempre, entretanto, a técnica tornou-se um facilitador na
produção artística. Um dos exemplos mais famosos foi a pintura da Santa Ceia de
Leonardo da Vinci. Preocupado em pintar ao mesmo tempo em que pesquisava novas
técnicas de preparo de suporte onde aplicar a tinta sobre a parede, Da Vinci
acabou por fazer uma base em seu mural que se revelou insatisfatória,
deteriorando-se rapidamente, exigindo restauros ainda quando vivia o mestre.
Dados da publicação
Escrito por João Werner, publicado na
Folha de Londrina, Caderno 2, 12/09/1991, pp.
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