"A interpretação de Leonardo"
Abre-se, amanhã, a exposição A Aventura do Gênio Universal no
Museu Histórico Pe. Carlos Weiss. Realizada pela IBM Brasil e com apoio da
Universidade Estadual de Londrina, são mostrados, construídos em escala, os
projetos de inventos de Leonardo da Vinci.
Tendo esta brilhante homenagem da IBM a Leonardo como estímulo
e pano-de-fundo, pode-se aproveitar para considerar o método próprio de
abordagem ao objeto, histórico e artístico, dado pelo ponto-de-vista semiótico.
Embora não contendo declaradamente este método, a exposição Aventura... é um
exemplo de resgate a que se soma interpretação, típicos da atuação semioticista.
Se algo há de mais evidente na obra de Leonardo é a variedade
de seus interesses e o brilhantismo que dedicou a cada um deles,
individualmente. Sua obra, no conjunto, extrapola disciplinas isoladas. Foi
pintor, escultor, engenheiro, arquiteto, físico, biólogo e filósofo,
contribuindo qualitativamente nestas áreas do conhecimento. Transborda de
interesses sua obra ao pesquisador contemporâneo, como uma luz do passado
brilhando no presente.
No entanto, não há como inteirar-se dele, humano como foi. Não
há como resgatar, empaticamente, o cerne vital de seu sentimentos. A luz de seu
íntimo apagou-se para nós no momento de sua morte. Dele, do universo que foi seu
espírito há, para nós, “apenas" o que é mediado pela obra que deixou.
Do seu alcance espiritual resta-nos nada além que o revelado na
Monalisa, na Santa Ceia ou no São João. Da sua curiosidade científica somente o
que apreendemos nos inúmeros tratados e estudos sobre anatomia e física. Da
inventividade genial, do engenho assombroso, nada mais do que se vê, por
exemplo, em uma exposição como esta da IBM.
Leonardo e o signo
Este é o ponto de cisão, em que a perspectiva semioticista se
afasta do historicismo clássico e se projeta como um método historiográfico,
duplamente válido pelo rigor de abordagem e pela riqueza de desdobramentos.
O que nos resta de Leonardo, quer queiramos ou não, é esse
multifacetado e rico legado. É através desta benjaminiana constelação de obras,
desse emaranhado objetivo, que se pode entreolhar Leonardo. Mas, não vê-lo como
indivíduo que foi, mas como ele se mostra, ou melhor, como suas obras o
representam, mediam. Não se vê mais Leonardo, mas o Leonardo.
Suas obras, como signos, apontam para alguém além delas
próprias, alguém que nem mesmo existe entre nós. Ao invés de personalista, a
análise semiótica - que vê as obras como signos - desvela um outro signo - um
interpretante mental - que é a imagem que temos, hoje, de Leonardo.
História das interpretações
São quase 500 anos de acumulação de interpretações e análises,
desde a morte de Leonardo. Análise refutando análise, interpretação ampliando
interpretação. A diferença reside em que, enquanto o historicista pretende um
passado fidedignamente descrito em suas análises, o semioticista sabe que esse
mesmo passado só existe, para nós, através destas mediações.
Numa metáfora, enquanto o garimpeiro historicista espera,
lançando sua peneira n'água, retirar a pepita da verdade no fundo do rio, o
semioticista sabe que, no rio da história, apenas outras peneiras serão
encontradas. Ao invés de lançá-las fora, o semioticista observa se, em alguma
das peneiras pescadas, não encontra o ouro embutido na sua construção.
A cada nova faceta do gênio revelada em alguma pesquisa não
importa, apenas, o "quem foi Leonardo". Importa, antes, o quanto e como uma nova
interpretação vem se somar ao conjunto de nossas interpretações. Importa
relacionar esta nova interpretação com o signo Leonardo, com o contexto das
outras interpretações possíveis e, também, com o contexto interpretativo daquele
que lançou a nova idéia. Cabe também perguntar: por que este garimpeiro lançou
aqui sua peneira e não lá, no rio da História?
Esta belíssima exposição que a IBM traz a Londrina é uma destas
peneiras lançadas à história. Não se engane o espectador, Leonardo lá não
estará. No entanto será possível compreender, abandonadas as expectativas
historicistas, uma importante ótica da obra de Leonardo.
Em um mundo em que a tecnologia e o cientificismo têm colorido
a filosofia moderna como uma paradigma, esta exposição vem acrescentar ao signo
Leonardo mais este significado: o assombro de seu gênio antecipador.
Dados da publicação
Escrito por João Werner, publicado na
Folha de Londrina, Caderno 2, 04/10/1990, pp.
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