"A estética do irregular"
Parte I
Há muito tempo, temos dividido em nossos pensamentos, o mundo
em dois lados. Dividimos todas as coisas entre aquelas que dependem do homem
para existir e as que dele são completamente independentes.
Seguindo esta idéia por vários séculos, temos colocado de um
lado a natureza e de outro a cultura, separando o natural do artificial, o
caótico (indeterminável) do ordenado.
Essa é uma divisão preponderante dentro do pensamento
ocidental. Todos aqueles que tentaram entender o mundo, inclusive os que
dedicaram-se às artes, caíram nesta dualidade.
Desde os tempos gregos, o belo era confinado a um dos lados
desta dualidade. O belo tem sido associado à ordem, à harmonia, ao equilíbrio e
segue, desde então, esta orientação geral na estética.
Este tipo de entendimento, levado adiante, acabou por produzir
uma questão paralela, fundamental para a estética, e que praticamente não foi
resolvida até a idade moderna: há ou não um belo natural? É claro, a natureza
não se submete à ordem com facilidade. Poucos duvidam que as coisas naturais não
possam ser belas. Como resolver esse impasse?
Enquanto nós pensávamos que a natureza era um relógio em funcionamento, em que
as esferas celestes e os seres da terra seguiam um organizado plano divino,
pleno de ordem, tudo ia bem.
Quando a teoria da evolução darwiniana, assim como a nova
física das partículas, mostraram que há um elemento irredutível de
indeterminação no mundo, tudo se transformou.
As novas descobertas da ciência mostravam que o caos e a
possibilidade eram válidos para entender o mundo, enquanto a ordem e a
necessidade repercutiam fortemente em toda a cultura, inclusive no campo de
estética e da arte.
Para um exemplo, basta lembrar que no mesmo período em que eram divulgadas as
novas descobertas da física quântica, na arte eram propostas novas linguagens
artísticas, especialmente o Cubismo.
Aquelas novas linguagens artísticas, bem como as novas idéias
estéticas, buscavam adequar-se ao novo mundo que se abria.
O belo: ordem e caos
Uma das proposições da estética pensada a partir daquelas novas descobertas, é
a de que deve existir uma forte atração no que é irregular, por aquilo que é
complexo. Percebeu-se que somos atraídos esteticamente não só pela beleza
ordenada e harmônica, mas pelas coisas que são complexas, intrincadas e
múltiplas.
Há um sentimento intenso diante da diferença, do caótico, da
inconstância. Deve haver uma estética que trate desta empatia que podemos ter
como o multiforme.
Essa estética certamente não é clássica. Ela amplia a
tradicional idéia da estética como o estudo do belo ordenado. Abarca também o
erótico sentimento despertado pelo que não é ordenado, o fascínio pela
irregularidade.
Com esta visão, a estética assume que a origem do sentido do mundo não é
ordenado, determinado e imutável, mas que provém do reino do possível.
Essencialmente aberta à possibilidade de novas ordenações, de novos fazeres, e
de novos significados.
Essa origem indeterminada do sentido é tão real quando a ordem
que o ser humano impõe ao mundo. Nós imprimimos um sentido ao mundo, dando-lhe
vários significados paralelos ao significado que possa ter de si próprio. Também
é estética essa atração pela diferença de sentidos entre os nossos e os
derivados do mundo.
A natureza é a primeira fonte destes sentimentos de atração
pelo complexo. O homem primitivo tinha um misto de identificação e temor pelo
natural, ou seja, se temiam os cataclismos naturais a que estavam expostos, por
outro lado, todos os primeiros cultos foram animistas, adorando o sol, os raios,
os trovões, etc. Eles tinham uma fascinação pelo temerário.
Esse sentimento estético provocado pela complexidade tem origem
anterior ao sentimento de ordem. Afinal, foi posteriormente à sua presença na
terra que o homem pode admirar-se, de forma profunda, da regularidade que podia
impor ao real, através da cerâmica que ordenava o barro, da cestaria que
ordenava o vime, da semeadura que ordenava a coleta.
Parte II
A natureza é a fonte perene dos sentimentos de atração pelo que
é irregular. Desde épocas primitivas, sentimos um misto de identificação e temor
pelo natural.
A natureza envolvia, alimentava e oferecia, mas, ao mesmo
tempo, amedrontava com cataclismos e predação.
Suas dimensões experienciáveis transcendiam em muito a capacidade de apreensão
do ser humano.
Na história do pensamento estético, tais sentimentos se
refletiram na idéia estética do sublime. Idéia que dá conta da atração exercida
sobre nós por aquilo que transcende, pelo que extrapola em complexidade nossas
ordenações perceptivas.
A união empática com a maior complexidade provoca o temor da
dissolução. Nossa articulação psicológica, limitada por natureza, teme diluir-se
diante do todo maior do natural.
Graus de acaso, graus de organização
Acaso e ordem não se anulam mutuamente, não são exclusivos.
Criam dois pólos de atração, diluem-se um no outro criando graus variados onde
gravitam as nossas experiências do dia-a-dia.
De todas as inúmeras experiências possíveis que teríamos,
nossas expectativas atuam como um "filtro seletor", reduzindo todos os acasos ao
nosso conhecido. É uma necessidade vital apreendermos regularidade nos
acontecimentos, há uma necessidade de padrões de coerência desde a vida
biológica até a vivência social.
Toda vez que o acaso rompe o círculo fechado das nossas
expectativas, quando se intromete em nossas vidas o inesperado, quando acontece
algo "que não estava nos planos", há uma situação de temor, uma necessidade
quase instintiva de voltar para o plano do conhecido.
Aproximar-se do acaso, reduzindo a intensidade de nossa
expectativa é uma situação angustiante, que contraria nossas mais simples
necessidades. A atividade artística, entretanto, pode ser um rumar consciente em
direção ao caos.
Sentido nas possibilidades
O processo criativo é um processo de encontrar novos sentidos.
A obra de arte é a ordenação do caos através da beleza, é a mediação entre as
muitas possibilidades do acaso e a ordem da cultura.
A obra de arte realiza ambos, caos e ordem. É caos porque está
sempre a suscitar novos significados da sua apreciação, e é ordem enquanto
necessita de um elemento conhecido para realizar a comunicação, elemento
conhecido que permite um trânsito com quem a admira.
Arte não é expressão de alguma individualidade, como quer o
subjetivismo, nem é mero exercício técnico. Arte é criar hábitos de sonhos,
hábitos de sentimento. É abrir um novo universo para a experiência, não um
universo particular, mas um que possa ser vivido por quem dele se aproximar.
Socialmente, podemos manter um sem-número de outras atividades
plásticas, sejam elas decorativas, terapêuticas ou apenas prazeirosas, mas
exigir menos da arte que indicar novos sentidos para a existência é perder dela
o principal.
O artista retorna do caos com mão cheia de sentido, e é nisso que a sua obra
obtém significação. Não porque exprima algumas idiossincrasias pessoais, mas
porque sua ação artística dá novos sentidos ao caos aberto da experiência de
todas as outras pessoas.
Dados da publicação
Parte I, escrito por João Werner, publicado na Folha
de Londrina, Caderno 2, 04/08/1991,
pp. 8
Parte II, escrito por João
Werner, publicado na Folha de Londrina, Caderno 2, 15/08/1991, pp. 4 |