"Arte conceitual"
A arte conceitual é o ápice do radicalismo da proposta estética
da modernidade cultural. No que tem de ambígua, no que comporta de dubiedades, a
rápida e sinuosa trajetória de inovações e novidades da arte no século 20, a
partir da crise do século 19, concluiu-se, de certa forma, na arte conceitual. O objeto estético, que na história da arte quase sempre havia coincidido com
alguma corporificação material, na arte conceitual desmaterializa-se. Sem um
corpo físico, o objeto estético da arte conceitual abre um vácuo, preenchido por
outras instâncias da criação, em alguns casos revelando novas dimensões do fazer
artístico. Paradoxo da arte conceitual, como de resto da arte moderna, é a sua dupla
condição de existência: por um lado é herdeira de uma sucessão de propostas
estéticas, cubismo, dadaísmo, land-art, arte povera, etc., por outro lado, nega
a possibilidade da arte enquanto instituição sócio-cultural, enquanto tradição.
Assume o ideário antiarte, contestatório, típico das décadas de 60 e 70. Alguns antecedentes
Os grandes movimentos político-artísticos de meados do século 20, fornecem o
pano de fundo para o surgimento da arte conceitual George Maciunas e os grandes
happenings que organiza; Kaprow e as colagens de objetos, os environments. A
idéia de obra de arte, nestas manifestações de happenings, dissolve-se na idéia
de ação estética. Os happenings são grupos de pessoas agindo esteticamente; não
há, então, "artista" como o concebemos tradicionalmente, nem qualquer monopólio
de produção de arte. Outra origem da arte conceitual serão os movimentos artísticos da land-art e a
arte povera. A land-art contribuiu com a dissolução da distinção entre arte e
natureza, entre o belo natural e o produtível. Obra de arte, na concepção dos
land artistas, é o próprio locus físico, a própria natureza como objeto
artístico. A segunda, arte povera, trabalha com o objeto encontrado, o escolho
industrial, trapos, lixo, etc, dando-lhes feição estética. A arte conceitual, herdeira implícita daquelas tendências, dará primazia não à
obra de arte enquanto ser material, mas à concepção desta. Na arte conceitual, o
espaço teórico toma à frente a práxis; se antes havia ainda qualquer preocupação
quanto à presentidade da obra, na arte conceitual o objeto, quando também
material, é mero sustentáculo das relações pretendidas pelo artista. Pode-se
afirmar que na arte conceitual é mais importante a teoria, as concepções
intelectuais, que o estético em si. Irônicas intervenções
Não há na arte conceitual, como conseqüência, qualquer dos valores tradicionais
da arte: nem domínio técnico, por exemplo, nem, muitas vezes, resultados
estéticos: a obra conceitual pode repercutir, simplesmente, apenas no plano
social (contestatório), no plano intra-subjetivo, psicológico (com intenções
liberalizantes), ou no plano intra-artístico (com intenções meta críticas), que
suas funções originárias estarão satisfeitas. Exemplos de arte conceitual são infindáveis, tantos quantos artistas
dispuseram-se a fornecê-los. Citamos o artista Piero Manzoni, italiano, que em
1961 criou a Escultura Viva, grupos de pessoas que foram "assinadas" pelo
artista, recebendo certificado de autenticidade, tornando-se, a partir de então,
verdadeiras obras de arte...
De Manzoni são, também, os Excrementos de Artistas: noventa latas contendo
trinta gramas cada, rapidamente comercializadas em galerias européias. Outro exemplo, menos escatológico, é o artista holandês Boezem, que, em 1969,
realizou sua obra conceitual sobre os céus de Amsterdã: com um avião a reação,
escreveu seu nome sobre a cidade, verdadeiramente assinando a natureza. Crítica e futilidade
Por essa vagueza e gratuidade com que se aplica, o termo conceitual tornou-se
quase que completamente sem significado atualmente. Por outro lado, o aspecto
contestatório envolvido em sua gênese, fundamentalmente para sua caracterização,
diluiu-se por completo contemporaneamente: parceiros da arte conceitual na
intenção antiarte, outros movimentos artísticos contemporâneos, como o
neo-expressionismo, foram completamente assimilados pelo establishment da arte.
Mesmo destino "consumível" não teve a arte conceitual, apenas porque a
precariedade da maioria de seus produtos não é muito bem vista pelo mercado.
Por outro lado, a infindável diversidade de suas manifestações necessitaria de
uma segmentação do termo conceitual, um desdobramento em corolário. Não é
possível agrupar, sob um mesmo guarda-chuva teórico, toda e quaisquer
brincadeiras pueris com obras mais inteligentes, obras balizadoras de novas
direções de reflexão estéticas com quaisquer irresponsabilidades. Não é possível
que o pretexto de "modernismo" avalize qualquer irreverência descompromissada. O criador de arte conceitual caminha sobre um sutil equilíbrio semântico, entre
a inovação e a banalidade, entre o óbvio e a possibilidade de incompreensão do
público. Mesmo que o artista conceitual consiga atravessar a barreira saturante
que a "arte conceitual" da mídia televisiva diariamente irradia, ainda enfrenta
um grande desafio: dar a sua idéia também um valor estético, sem o qual,
seguramente, não a tornará lembrada quando se fala de arte.
Dados da publicação
Escrito por João Werner, publicado na
Folha de Londrina, Caderno 2, 04/04/1991, pp.
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