"A arte e o abstracionismo"
Parte I
A
arte abstrata é uma grande polêmica entre artistas, críticos e
historiadores. A questão de saber o que é abstracionismo, como pode ser
apreendido esteticamente ou, até mesmo, se pode o abstracionismo ser artístico,
tem sido centro de inúmeros debates.
A
arte abstrata pode ser pensada como um estilo, entre outros diversos,
dentro da história da arte. Como estilo, foi retomada a partir da
modernidade inicialmente com cubistas e futuristas disseminando-se, a
partir de então, em diversas outras tendências artísticas, formais (que
prezam a articulação inerente à obra) ou informais (cuja intenção é
a desarticulação interna da obra).
Como abstracionistas formais
teríamos o Neoplasticismo, o Construtivismo etc.
Exemplos do abstracionismo informal teríamos a Action Painting, o
Tachismo, o Neo-Expressionismo etc.
A
retomada do estilo abstrato nos primeiros anos do século, teve uma dupla
origem. Por um lado, foi fruto das novas experiências estéticas exigidas
pela modernidade econômica e social na Europa. Por outro lado, o estilo
abstrato foi retomado porque prestava-se, como "novidade", às
intenções vanguardistas de alguns movimentos artísticos.
Neste
segundo sentido, vanguardista, a arte abstrata foi retomada porque
representava, para a época, um "estar à frente do tempo". Dado
que, desde antes da Renascença, nenhuma tradição artística européia
podia assumir ser a origem do abstracionismo artístico, este estilo dava
a nítida impressão a todos de uma ruptura com aquelas tradições.
Esta
intenção de colocar o abstracionismo no epicentro de um movimento social
e político de ruptura, especialmente levado a cabo por abstracionistas
informais, revelou-se despropositada.
Como
estilo artístico, o abstracionismo é quase tão antigo no tempo como a
sua antítese, o naturalismo. Se, na pré-história, toda a arte do período
paleolítico foi de um naturalismo vigoroso, no neolítico, ao contrário,
a linguagem artística usual era o abstracionismo.
Nos
desenhos rupestres neolíticos, no uso das técnicas da cestaria ou da cerâmica,
está atestada uma origem para o estilo abstrato. Cai por terra a idéia
de uma "novidade" no ressurgimento do estilo abstrato na
modernidade.
Abstração
e estética
Se tomarmos o estilo abstrato, entretanto, no seu aspecto positivo
na modernidade, desenvolvido principalmente pelos abstracionistas formais,
e que consistia em uma resposta às novas experiências coletivas, é
possível então situar e entender não somente a arte abstrata contemporânea,
como delimitar a verdadeira esfera do abstracionismo inerente à arte.
Não
tomarmos o abstracionismo apenas enquanto estilo artístico, entre outros,
mas em relacioná-lo à experiência vivencial, não só no tempo presente
mas no tempo passado também. A própria constatação de que o
abstracionismo surge como estilo em diversos períodos históricos,
leva-nos a supor que as suas características são muito mais gerais do
que particulares, muito mais comuns a vários períodos do que restritas a
este ou aquele específico.
A
tese que se coloca é a de que o abstracionismo é, na verdade, uma autêntica
categoria de experiência estética. O abstracionismo seria uma forma de
experiência, qual seja, uma maneira que tem o sujeito de experimentar o
real.
Se
concordamos em que, genericamente, nosso trânsito com o real dá-se na
experiência, ou por aproximação ou por distanciamento
(não físico mas psíquico), então podemos situar o abstracionismo
como uma categoria estética. Se por aproximação entendermos toda forma
de experiência que se constitua pela empatia com o objeto, então o
distanciamento seria toda forma de experiência que visa a um
deslocamento, a uma transcendência dos objetos.
A
categoria abstrata, em arte, seria caracterizada pela representação que
não tivesse, por experiência psíquica, uma necessidade de apropriação
ou envolvimento com objetos particulares. Essa categoria abstrata
buscaria, pelo distanciamento ao real, uma universalização da linguagem
artística.
É
possível perceber, mesmo ainda sem exemplos ilustrativos de obras de
arte, que essa categoria abstracionista seria uma descrição,
particularizada na experiência estética artística, do processo
abstrativo geral da cultura que, em um amplo quadro histórico, conduziu
às formulações de uma religião transcendental monoteísta em oposição
aos mitos animistas anteriores, a um processo de investigação pelo
pensamento em oposição às práticas mágicas anteriores etc.
Parte II
O
abstracionismo, em arte, não deve ser entendido apenas como um estilo artístico
entre outros estilos. Limitar o abstrato à ocorrência neste ou naquele
período da história da arte, na produção deste ou daquele artista, é
perder o principal para a sua correta caracterização.
Antes
de ser apenas um estilo, o abstracionismo é uma forma de experimentar o
real. Dentro das formas de observação ou apreensão dos objetos do
mundo, o abstracionismo revela-se uma autêntica categoria
estética, a servir de referência para uma mais profunda fruição da
arte.
Na
experiência, do ponto de vista da relação com os objetos, o
abstracionismo dá conta do possível distanciamento psíquico que sente o
artista em sua produção. Do temor, da constante intenção de transcendência
ao fluxo do real. Coloca-se, desta forma, em oposição ao naturalismo,
cuja base na experiência psíquica dá-se pela aproximação com o
objeto, à empatia, ao envolvimento.
Ao
chamarmos o abstracionismo uma categoria, não significa que ele se
identifique com a definição kantiana do a priori
puro. O abstracionismo não é uma forma dada anteriormente, sobre a qual
é possível meditar-se sem qualquer relação ao real. Depende, ao contrário,
inteiramente de um contato com o mundo da experiência; forja-se, o
abstracionismo, diretamente sobre a vivência humana.
Por
outro lado, não há coincidência entre o abstracionismo como categoria
estética e o progressivo distanciamento entre o sensível e o racional,
formulado por Hegel. Primeiro porque esta categoria abstrata é uma forma
dada já na apreensão do objeto, portanto não necessariamente distante
do sensível. Segundo, porque o distanciamento do real na experiência
faz-se não em direção a uma análise
(racional) logocêntrica, mas em direção à síntese
plástica.
Camponês
e marinheiro
Um
exemplo desta distinção entre categorias estéticas, abstrativa e
naturalista, é possível encontrar em Walter Benjamim. Quando o autor
descreve, em um de seus livros, os dois tipos básicos de narrador, o camponês
e o marinheiro, temos uma analogia com as duas categorias estéticas
principais.
O
camponês, cuja vida transcorreu totalmente em um mesmo local, conhece
deste local toda a sua história. Viu as crianças crescerem, viu as boas
e as más colheitas, viu os que se foram. Tem, com esse local, uma
identidade completa. A proximidade dele com os fatos faz com que sua narração
transmita suas tradições, seus costumes. A experiência deste narrador,
transmitida por suas estórias, é de natureza empática, insere-se na
categoria estética naturalista.
O
marinheiro, ao contrário, tem sua vida transcorrendo em muitos locais
diferentes. Sua narratividade traz aos ouvintes os fatos distantes não no
tempo, como o camponês, mas, sim, distantes no espaço. Sua experiência
não é contígua, unitária, mas a articulação das múltiplas vivências.
A narração do marinheiro funda-se sobre a possibilidade de transcendência
dos fatos isolados. Sua narração é um exemplo de narratividade abstrata.
Benjamim
não formulou estes tipos de narradores ideais em atenção a estas duas
formulação da estética abstrativa, mas suas formulações permitem tal
analogia. É, inclusive, pertinente a mostras de que a categoria
abstrativa é próxima a experiências possíveis, não distante e algo
sem vida, ou meramente assentado sobre racionalizações vazias.
O
abstracionismo e o estilo
Ao
retornarmos à questão do estilo, após esta colocação do
abstracionismo como uma autêntica categoria estética, é possível obter
muitas luzes na análise das obras de arte. Diversamente de agrupar as
obras apenas enquanto tem esta ou aquela aparência, pode-se buscar uma
abordagem mais profunda, que saliente as raízes destes estilos na experiência
vivencial com que foram produzidos.
É
possível entender certas "anomalias" estilísticas, que
ficariam não compreendidas se apelássemos para distinções
superficiais. O estilo pontilhista, por exemplo, que superficialmente é
figurativo, tem a abstração como concepção estética produtora.
Contrariamente, a catedral gótica, que é abstrata na aparência e na
construção, exige uma aproximação estética empática. Estes exemplos
mostram como as categorias podem se relacionar complexamente com os
estilos.
Por
outro lado, é possível compreender o verdadeiro lugar do surgimento da
abstração contemporânea: ao invés de apenas um modismo, como muitas
vezes tem sido encarada por artistas e críticos, a abstração vem dar
resposta às novas formas de experiência trazidas pela Revolução
Industrial e pela Revolução da Informação.
Dados das publicações
Parte I,
publicada na Folha
de Londrina, Caderno 2, 25/04/1991,
pp. 4
Parte II, publicada na Folha
de Londrina, Caderno 2, 09/05/1991,
pp. 4 |