Statement: textos que escrevi sobre minha obra

Outras informações sobre o artista

Sobre minha obra completa

Parabéns aos Contentes! Saudações aos Fartos! Laudas aos Salvos!

Texto sobre a exposição "Legião, almas pra todo gosto"

A guerra iconoclasta do século VIII tornou explícita a virulência contida na figuração: causava polêmica, à época, a possibilidade de uma imagem ser idolatrada como se fora, ela própria, um ser e, mais além, (e, pior ainda sob a ótica religiosa) um ser "divino".
Mas é exatamente isto que vejo em alguns de meus retratos fictícios: traços humanos. Não traços meus, autobiográficos, mas traços que, às vezes, eu me estranho ao percebê-los.
Vejo, em alguns deles, um olhar que denuncia uma intenção. Sinto que há uma "alma" para além das pinceladas grosseiras do meu Flash. Há alguém lá, olhando de volta. Doces ou irônicas, amargas ou azedas, mansas ou raivosas, há pessoas embutidas em algumas daquelas imagens.
Wittgenstein falou disso, Gombrich dedicou um livro a isso: como uma mesma coisa material pode apresentar aspectos visuais distintos? Como posso ver, em um mesmo desenho, ora um pato, ora um coelho? Como uma simples conjunção de cores e pinceladas pode apresentar aspectos humanísticos?
A arte plástica compartilha algo com o xamanismo e a invocação e esta minha exposição tem algo de vodoo, como se fosse um mostruário de almas.
Enfim, razão seja dada aos iconoclastas....

Texto sobre a exposição "Motel barato"

Logo da expo 'Motel barato'Quando olhei o conjunto destas minhas gravuras pornográficas lado a lado, percebi que, só em um daqueles moteizinhos fuleiros que frequentava na juventude, poderia expor minha fauna erótica
Lembrei-me dos ambientes kitsch, cheios de coraçõezinhos cor-de-rosa, cupidos encardidos, frases de efeito e juras de amor eterno, sussurradas entre manchas invisíveis de fluídos corporais alheios, espalhadas pelo piso, paredes e lençóis. É o cenário perfeito/perverso para estas minhas gravuras feitas em Flash, um software de que gosto muito porque me permite o uso de uma linguagem plástica grosseira e agressiva, binário-expressionista.
>Meu "pincel" no Flash tem a riqueza gestual que dá pra obter de uma lâmina de faca, com pinceladas variando apenas em espessura e cores chapadas variando apenas em transparência. Não há modulação nem sutilezas, só toscas marcas cromáticas espalhadas pelo piso, paredes, lençóis e corpos. Um arremedo de Impressionismo, feito com cacos de vidro. Mais metaforicamente apropriado, impossível.

Texto sobre o entalhe em madeira "Alegoria à vida do 'Lugar Sem Nome'"

Trabalhei neste painel entalhado durante 18 meses, aproximadamente. Foi um período quase monástico para mim. Entalhava diariamente, consumia muitas drogas. Era um adolescente recém chegado de Nietzsche, Hermann Hesse e Dostoievsky. Gostava da cultura grega.
 Este painel é uma experiência mística, pessoal e lisérgica, traduzida através da interação entre sete figuras dispostas em dois planos distintos.
Embaixo há duas figuras, o 'Devorador de olhos' e a 'Ninfa correndo'.
O cheiro do cedro, o tac-tac do trabalho de "pica-pau" são lembranças muito emotivas para mim.
Do lado superior, à esquerda, duas figuras de mãos dadas. A mulher segura os cabelos esvoaçantes da ninfa que corre. O homem segura uma muda de cipreste que será plantada.
O último grupo de figuras é uma tríade inspirada na iconografia de antigos deuses hindús. É uma mesma personagem repetida três vezes em situações distintas. A primeira aparição, ajoelhada, cava a terra onde será plantado o cipreste. A segunda está de joelhos e voltada à direita, lança olhos que depois adquirem asas. A terceira personagem está de pé e tenta alcançar o sol ao alto.
Entremeados a estas sete figuras há uma profusão de pequenos personagens, plantas e texturas.

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Pinturas à óleo da série "Cinzas"

Minhas pinturas "Cinza" são o avesso da estética clássica, da beleza e da harmonia greco-renascentista. Penso nelas como um "lado B" da arte, atravessando as portas abertas pelos "Caprichos" de Goya, pela "Guernica" de Picasso ou por "Gritos e sussurros" de Ingmar Bergman. Acho que conceitos estéticos do romantismo do século XIX como o feio, o trágico, o grotesco ou o cômico podem ser aplicados à estas minhas pinturas.
Sinto-as como uma espécie de purgação, como um exorcismo da imaginação.

Sobre a pintura "Ícaro"

No mito grego, Ícaro morreu tentando alcançar o sol.
A versão de que morreu pagando por sua arrogância é meramente uma interpretação cristã pervertida.
A interpretação que julgo a mais correta do mito é a de que qualquer busca por um deus leva à destruição. Ícaro representa todo ser humano buscador de divindades, isto é, aquele que vai MORRER fascinado por algo inalcançável.
Quando criei este quadro, inicialmente queria representar a dor da ação de pendurar-se por ganchos.
é um tipo de ação penitente. Associei depois ao mito de Ícaro por que, para mim, buscar uma relação com o "divino" é,especialmente, uma ação dolorosa e auto-destrutiva.
O nirvana é o suicídio do Eu.

Sobre a pintura "Clube de Levitação"

Esta é uma segunda versão de uma pintura da década de '80. A primeira pintura tinha mais ou menos o mesmo tamanho, porém era colorida, com um fundo azul, se bem me lembro.
O tema original era do poeta José Júlio Azevedo. Não sei bem qual era o contexto em que ele criou o clube, porém a idéia me cativou. Quem eram os membros deste clube? Como eles levitavam? Era pelo uso de drogas?
Fiz o grupo praticando sua arte misteriosa dentro de uma caixa, mas não sei bem porquê. Penso, às vezes, que pode ser uma metáfora de como a sociedade trata os imaginativos, mas não pensei nisso enquanto esboçava o quadro.

Sobre a pintura "Gauguin"

Essa é uma cena que vi em São Paulo, próximo da Cardeal Arco-Verde, por volta do anoitecer. Um grupo de crianças com os indefectíveis saquinhos de "iogurte" à boca, rodeando um rapaz sentado ao chão. Intenso congestionamento da hora do rush na capital do país (Brasília, que Brasília? Brasília, na verdade é um esconderijo... mas esta é outra história....).
A primeira vez que vi uma criança pequena se drogando, estava eu também totalmente drogado, andando pelo calçadão em Curitiba atrás das fogosas"roxinhas" da capital paranaense. A criança era um menino de no máximo uns 10 anos, descendo com um saquinho de cola na mão, totalmente despirocado.
Não tenho nenhuma intenção de fazer arte de cunho social, de denúncia ou qualquer outra coisa do gênero. Porém estas são cenas trágicas, que marcaram minha imaginação.
Gauguin, entre os artistas que admiro, foi aquele que mais intentou encontrar a civilização além (ou aquém)da civilização ocidental. Chamar tais culturas de bárbarie seria apenas reproduzir um preconceito.Será que em uma outra instância de cultura -lá no Ta Matete, por exemplo - cenas selvagens como aquelas que descrevi acima fariam algum sentido?
Neste meu quadro não quis expressar nenhum tipo de constrangimento ou julgamento ético. Quis que parecesse uma cena normal e neutra, cotidiana e comum. Afinal, não é com uma indiferença assim que nossa sociedade trata tais situações na realidade?

Sobre a pintura "Tio Hamilton"

A arma que ele usou foi uma "garruchinha", calibre inferior a uma 22. Disparo que, surpreendentemente, não o matou. Lembro-me de ter visto uma radiografia do crânio dele com a bala alojada. Morreu somente dez anos depois, alcoólatra.
Convivi com ele até por volta dos meus 8 anos. Lembro-me dele pela atenção que me dedicava e por ensinar-me a jogar xadrez. Nunca soube, nem por ele e nem por ninguém, o motivo de sua auto-destruição.
Ficou para mim como um símbolo das vítimas que desaparecem sem deixar vestígios. Como disse o mestre Walter Benjamin, os vencedores carregam em cortejo triunfal até mesmo a história dos vencidos. Pintei este quadro como um modo de purgar a minha imaginação.

Escultura em cimento "Monumento ao Homem do campo"

A idéia desta escultura era homenagear os muitos homens e mulheres anônimos que ajudaram a criar a região norte do Paraná e a transformaram em grande produtora rural, originando as riquezas que tão poucos usufruem.
Não rendendo licitações, exatamente como aqueles a quem pretendia homenagear, a escultura era desinteressante ao "Poder Público Municipal". Foi abandonada e depois se perdeu.
Hoje, está desaparecida.

Texto sobre a exposição "Feios, sujos e malvados", 2008

O que une estilísticamente as 11 pinturas digitais expostas é a sua linguagem eminentemente figurativa e o conteúdo polêmico narrado de modo escrachado. O título da exposição, inclusive, foi inspirado por um programa humorístico de televisão.
>Nesse sentido, são parentes próximas da atual voga pop-surrealista do underground da costa oeste Americana. São referências os artistas Mark Ryden, Gary Baseman. Ou, no campo da cultura erudita, Eric Fischl e Damien Hirst.
Os temas de minhas pinturas giram em torno de sexo, drogas e violência. O sexo é vendido e comprado. As drogas são consumidas publicamente. A violência se dá entre pessoas maduras ou contra a ordem pública. Cada pintura narra uma breve fábula urbana, eco distante de um conto do mestre Dalton Trevisan. O belo e o agradável já se foram, em um horizonte irrecuperável.
Não faço crítica social ou peroração moral. O que quero é capturar aquele momento humano tragicômico de alegria, quando se festeja ter conseguido os primeiros cinco reais do dia pedindo esmolas, pois este é o valor de uma lata pequena de cola de sapateiro.

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Texto sobre a exposição "O cordeiro pressente o lobo", 2010

O título de minha exposição tem três significados: como metáfora, remete às fábulas infantis e às fábulas religiosas e, por outro lado, fala também de instinto, especificamente da sobrevivência. Acho que é disso que se trata na arte. De incomodar, de assustar, de transformar. A arte é emersão do instinto na vida social.
Por isso, a arte deve ser o predador e a cultura, a presa. Minhas gravuras tratam de temas considerados tabu, desagregadores. Auto-mutilação, suicídio, incesto e o uso de drogas. Nenhuma delas foi feita para agradar mas, se são arte, só os cordeiros poderão dizer.
Todas foram criadas em computador. Elas não preexistem como pintura, por exemplo. Depois de finalizadas, são impressas em uma impressora de alta qualidade gráfica, uma a uma. Está se firmando nos meios artísticos o nome de "giclée" para este tipo de gravura. O cuidado com o papel utilizado na impressão bem como a seleção de uma impressora apropriada, garante a aceitação pelos grandes museus deste novo tipo de arte.

página da exposição

Sobre a gravura digital "Angelina se mutila"

A notícia da bela atriz se auto-mutilando com facas é comovente.
Quando experimentava, através de esboços, a melhor posição para os braços da figura, vi a Deusa Kali hindú.

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Sobre as pinturas e gravuras "Rurais"

O tema rural deriva todo de minhas lembranças de infância. Não que necessariamente tenha vivido cada cena que ilustro, mas o convívio com a Terra deixou marcas indeléveis em mim. Em meu trabalho artístico, a dualidade presente não é a que existe entre o campo e a cidade, mas sim a que há entre a Terra e o céu. Sinto a Terra como plena de vida e de desejo de viver, multiplicando-se erótica e fartamente.
Plasticamente, o trabalho com a terra me dá uma riqueza e profusão de cores e de texturas. é possível e comum encontrar contrastes dramáticos entre um verde claro da vegetação e o vermelho sangue da minha terra local, ou entre o laranja queimado dos trigais maduros e o azul profundo e luminoso de um céu cristalino.
Por outro lado, no seu trabalho com a Terra, o ser humano tem posturas corporais dinâmicas e variadas. Desenhar o trabalhador rural em sua lida propicia, espontaneamente, composições cheias de vida e de intensidade.

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Sobre minhas pinturas e gravuras "Urbanas"

Embora meus quadros pareçam dizer o contrário, não faço arte de denúncia social.
Defino minhas pinturas como o resultado da imaginação comovida, isto é, como o fruto da atenção emocionalmente tingida pelo drama humano, pela pobreza, pelo trabalho humilde e a diversão barata.
Cada pintura retrata uma estória não escrita, porque história de anônimos.
Os doces sem embalagem expostos na vendinha da esquina, o forró à luz das lâmpadas de 60w., o calendário de mulher pelada amarelado pelo tempo. Quem olha pra isso? Pra que olhar pra isso?
Um cachorro preto perambula entre os barracos de minha pintura "favela". Não há comida pra ele ali, entre os famintos. Mesmo assim, que diferença faz.

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Sobre o relevo em cimento "Shikasta"

O relevo em cimento "Shikasta" é inspirado em romance homônimo da autora Doris Lessing, Nobel de Literatura. Narra o desenvolvimento da humanidade a partir da intervenção de seres divinos.
A narrativa se desenvolve da esquerda para a direita, como uma história em quadrinhos. Ao mesmo tempo, o painel é dividido por uma linha horizontal entre duas seções, superior e inferior.
Na inferior, vê-se uma parábola da história humana, através do uso da tecnologia em benefício da guerra. Na parte superior, vêem-se figuras aureoladas que, como fabula Doris Lessing, intervêm pelo bem da humanidade.
O frontão é dividido em 8 partes narrativas. Esta divisão corresponde à necessidade técnica do trabalho em cimento. Como seca rápido, é necessário dividir o trabalho em etapas.

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Texto sobre minhas esculturas da série "Figurinhas"

Minhas esculturas em cimento de pequeno porte são de minhas obras preferidas. Gosto de chamá-las "figurinhas" pois sua escala e seu peso tem algo de pueril e frágil.
Começo a trabalhar vertendo o cimento molhado em uma caixa de madeira que previamente construí. Quando o bloco de cimento adquire um ponto de secagem suficiente para se sustentar sozinho, retiro a caixa e exponho o bloco semi-úmido.
Trabalho com ferramentas de aço, estecas de argila, colheres, arames e qualquer outra coisa que esteja à mão e seja útil. Tenho de ser rápido e terminar a peça antes que o bloco de cimento seque totalmente. Depois de seco o bloco, não trabalho mais.
Já perdi várias esculturas por não conseguir terminá-las totalmente antes que secassem. às vezes, um dia particularmente quente e seco acelera a secagem, ou chega uma visita a quem dedico atenção ou, mesmo, um erro meu na avaliação da umidade do bloco.

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Texto sobre a exposição "Arte digital", 2007

A criação das pinturas digitais
A arte digital representa o novo na arte. é o que há de mais moderno e inovador nas técnicas artísticas. Em poucos anos, prevejo que a arte digital vai ampliar exponencialmente o número de seus praticantes e colecionadores. Entre inúmeras outras razões, está o fato de que a atual desconfiança e resistência que as gerações mais velhas têm com o computador vai desaparecer totalmente. Para os jovens de hoje, o computador é o principal equipamento de lazer e trabalho.
Muitos colocam em dúvida a ética envolvida na criação de arte digital. Ora, o fato de alguém utilizar tinta à óleo para falsificar um Rebrandt ou para fazer uma pintura de péssima qualidade, não desqualifica a tinta à óleo como um sofisticado instrumento artístico. São os seres humanos e não as técnicas que são éticos.
Minhas pinturas digitais são realizadas através de softwares que simulam pincéis, cores e telas. Para algumas destas pinturas, eu faço um esboço à lápis prévio que é posteriormente passado para o computador através de um scanner. Depois, este esboço é totalmente reelaborado.
Sendo assim, não existe uma pintura original à óleo, por exemplo, que tenha sido fotografada e depois impressa. Minha arte digital é exclusivamente criada apenas através do computador. Nenhuma de minhas pinturas à óleo ou acrílica foi ou será impressa e vendida como arte digital.
Como tenho experiência de mais de 25 anos com as técnicas artísticas da pintura e escultura, posso dizer que o trabalho da imaginação e da sensibilidade envolvidos na criação da arte digital é o mesmo. Não há os aromas nem os sons de um atelier tradicional, mas a empatia com a imagem, com o tema, o desenho, a composição, as cores, é o mesmo.
Impressão em Giclée ou digigrafia
De cada pintura, faço tiragens de 50 exemplares, assinando, numerando e datando cada uma, de próprio punho. A tiragem não é realizada de uma vez só, mas "by demand", isto é, cada gravura é impressa conforme é comercializada.
Como em uma tiragem de gravuras tradicionais (xilo ou serigrafia, por exemplo), cada impressão é numerada 1/50, 2/50, 3/50 e assim sucessivamente, indicando a ordem daquela gravura no conjunto bem como o total delas. Desta maneira, a última das gravuras será numerada 50/50.
Estilo
O estilo de minhas pinturas é figurativo. Isto ocorre porque gosto de desenhar. Mas não gosto que meus quadros pareçam fotografias. Gosto da irregularidade que resulta de um traçado à mão livre, das imprecisões e indecisões que a linha preserva enquanto me concentro na imagem que desenho.
Nenhum de meus temas é gratuito. Não desenho cenas porque possam ser mais comerciais. Faço pinturas rurais, por exemplo, porque cresci no meio rural, e minha imaginação está impregnada da terra vermelha do norte do Paraná. Faço pinturas urbanas porque morei por dez anos na megalópole São Paulo, capital de todos nós.
Pinto uma imagem não por ela ser bela ou agradável mas, primeiro, por que ela me comoveu.

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