"Arte digital conquista Florença"
Ranulfo Pedreiro
Artista plástico londrinense João Werner foi
selecionado para participar da Bienal de Arte Contemporânea na cidade que
foi o berço do Renascimento
Por 25 anos João Werner lidou com pincéis, tintas,
solventes e telas. Por 25 anos ele observou a tinta secar, amarelando a tela
e comprometendo o tecido. Por 25 anos ele pagou preços altos – um tubo de
qualidade pode custar até R$ 200 – para compor uma paleta digna de seu
traço. Artista formado pelo desenho, com preferência pela figura humana em
movimento, João Werner está abandonando os pincéis.
O motivo é simples. João encontrou na tecnologia a solução
para suas mazelas. Com um software e uma caneta eletrônica, ele descobriu
que a pintura digital oferece recursos semelhantes, permitindo impressões de
qualidade. Os quadros digitais de Werner estão muito próximos das telas.
Suas figuras mantêm o olhar resignado, com a serenidade triste de quem
suporta as dores do cotidiano.

Mudou o suporte, mas não a linguagem. Os traços, as
“pinceladas”, os “riscos” que caracterizam o figurativismo de Werner estão
lá. As cores, às vezes fortes e contrastantes, às vezes com tonalidades
preponderantes, também. O pintor João Werner continua o mesmo.
Com os trabalhos digitais expostos no site
www.joaowerner.com.br - e na loja Ambientare (leia ao lado) –, João Werner
recebeu um e-mail da Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Florença,
que começa em dezembro. A princípio, não acreditou. Mas era verdade. O
londrinense foi convidado a ir ao berço do Renascimento justamente pelo
interesse que a arte digital vem despertando em todo o mundo.
“A pintura digital me acolheu”
RANULFO PEDREIRO - A arte digital
que você produz traz elementos da pintura e da gravura. É possível
classificá-la?
JOÃO WERNER - Do ponto de vista da criação, a arte digital
é determinada pelos softwares utilizados pelo artista. Hoje em dia, os
softwares de pintura são muito sofisticados, simulando uma grande variedade
de ferramentas artísticas, possibilitando ao artista digital o uso desde as
tradicionais técnicas de pintura a óleo, por exemplo, até giz de cor,
pastéis e grafites, entre outras. Do ponto de vista da exposição destas
pinturas, como os processos são de impressão, elas são classificadas técnica
e eticamente como gravuras. O artista digital faz uma tiragem de suas
pinturas, utilizando como matriz a sua criação digital original.
RP - Como é o processo de criação
digital?
JW - Eu me utilizo de uma tablet, isto é, de uma prancheta
digital acoplada ao computador, sobre a qual desenho utilizando-me de uma
caneta própria. Tudo o que desenho sobre a tablet, é reproduzido no monitor
do computador. É um processo visualmente muito similar ao de desenhar sobre
uma folha de papel.
RP - Você tem uma linguagem
característica, que foi preservada com a mudança de suporte.
JW - A pintura digital me acolheu esteticamente. Comparando os
trabalhos que fiz em acrílica e minhas criações digitais, vejo uma
similaridade que às vezes me espanta. Muitas das técnicas tradicionais de
pintura, como as famosas veladuras que eram utilizadas por Rembrandt, são
tecnicamente obtidas pelos layers de um software de pintura. Sucessivas
camadas de tinta transparente, que vão aprofundando e sofisticando a
experiência da cor e da luz.
RP - A Bienal de Florença descobriu
seu trabalho pela internet?
JW - Já há algum tempo eu exponho minhas obras através de um
site. Foi através de uma visita dos curadores da Bienal a este site que fui
convidado a participar. A princípio, recebi um e-mail-convite dos curadores
e achei tratar-se de algum spam. Posteriormente, ao receber em casa toda a
documentação impressa da mostra, vi tratar-se de uma exposição internacional
de alto nível.

capa
do Jornal de Londrina
RP - Qual será sua participação na
Bienal de Florença?
JW - Exporei 26 obras de arte digitais. Todas de temática
brasileira e mitológica. É, certamente, um ponto de virada em minha carreira
artística. Por exemplo, através do catálogo da Bienal, que é distribuído
para a maioria dos museus europeus e americanos, meu trabalho adquire
visibilidade internacional.
RP - Como é participar de uma Bienal
no berço do Renascimento com obras digitais?
JW - Comovente para mim. Cresci, adolescente, copiando vezes
sem conta as pinturas de Michelangelo e Da Vinci. Estar lá em dezembro,
mesmo que de forma modesta, é uma honra inestimável.
RP - O que você acha de a Bienal de
São Paulo apresentar um andar vazio como representação da crise pela qual
passa?
JW - Creio que nas grandes mostras de arte, as virtudes superam
em muito suas limitações. É uma pena o que ocorre na Bienal de São Paulo.
Uma crise sem precedentes, certamente com prejuízos a toda a arte
brasileira.
Dados da publicação
Matéria publicada no Jornal de Londrina, página 17,
18/11/2007, Londrina (PR).
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