Entrevistas de João Werner

Oscar D'Ambrosio, Rádio UNESP

2012, novembro 12 - Concedi entrevista para o crítico de arte Oscar D'Ambrosio, veiculada no Programa Perfil da Rádio UNESP, a propósito da minha exposição "Natureza divina".

Ouça aqui a entrevista.

Trem das Onze, Rádio UEL

2011, março 30 - Concedi entrevista para o programa "Trem das Onze", Rádio da Universidade Estadual de Londrina (UEL-FM), falando sobre minha exposição "Motel barato".

Ouça aqui a entrevista.

Oscar D'Ambrosio, Rádio UNESP

2010, novembro - Entrevista para o crítico de arte Oscar D'Ambrosio, veiculada em seu programa diário 'Perfil Literário' na Rádio Unesp FM (link para a Rádio online).

Clique aqui para ouvir a entrevista. 17 minutos de duração.

Jornalista Paulo Briguet, Jornal de Londrina

Paulo Briguet: Que fantasmas habitam essas telas? Goya? Gauguin? Francis Bacon? Bergman?

João Werner: Acho que esta é maior característica da arte. Quando admiro uma obra de Bacon ou de Goya, por exemplo, esta obra "acende luzes" em quartos escuros de minha imaginação. Quando estamos atentos, a arte reinventa o nosso olhar, ampliando os limites de nossos sentimentos. Esta série "Cinza" é originada assim. há nela incrustações de todos os artistas que admiro. são as chamadas simpatias eletivas.

Paulo Briguet: Numa exposição anterior, "Abstratos e decorativos", você decompôs as formas e explorou as cores. Agora, você mantém as formas e abre mão das cores. Por quê?

João Werner: Acho que o meu percurso criativo explica um pouco isto. As telas "cinzas" foram pintadas entremeando o mainstream de minha produção artística principal. Eu pintava uma tela de temática rural, por exemplo, e depois uma tela "cinza". Foi como um movimento pendular, um pouco estava sob a luz, um pouco sob a sombra.
Conhecendo minhas limitações artísticas e sem querer fazer comparações ingênuas, lembro que Fernando Pessoa tinha suas várias "aparições" poéticas, assim como Picasso pintou simultaneamente, durante muitos anos, obras de estilo cubista e obras de estilo classicista.

Paulo Briguet: "Ícaro" está preso por ganchos; "Gauguin" está entre os meninos cheiradores de cola; os sócios do "Clube da Levitação" flutuam dentro de uma caixa. Por que todos estão fora do lugar?

João Werner: Lembro-me da famosa teoria do "desenraizamento" do filósofo Walter Benjamin. Sem querer me alongar, creio que esta é uma das experiências preponderantes da contemporaneidade. Estamos "fora de lugar", vivendo em uma sociedade que não nos acolhe, estrangeiros habitando em um mundo de consumo, como se fora um espelho em que não nos vemos refletidos.

Paulo Briguet: Qual é o papel da memória no seu trabalho?

João Werner: A memória é a função preponderante em minha criação artística. Lembro-me de ter lido o pintor Francis Bacon dizendo: "Estou pleno de imagens". Bem, as minhas imagens não tem o mesmo valor que as do pintor britânico, mas sinto-me carregado por elas. Por exemplo, tenho quadros que ainda vou pintar e cujas imagens se originam de sonhos que tive aos 4 anos. não sei se isso é patológico, mas é assim que funciona comigo.

Publicada no Jornal de Londrina, pp. 17, 20 de setembro de 2007, Londrina, PR.

Antônio Leal, Revista Vagalume

Vagalume - Acredito que, na arte, qualquer que seja o meio de expressão, dois aspectos se destacam: a linguagem do artista e os temas. Embora seja um leigo, senti no seu trabalho uma assinatura, uma marca pessoal, que é o que chamo de linguagem. você concorda com esta minha observação? Como é o trabalho de um artista plástico na busca de sua linguagem? Quais os elementos que caracterizam, fundamentalmente, sua linguagem? você saberia dizer? Já refletiu sobre isto?

João Werner - Creio que a linguagem, qualquer que seja ela, está a serviço da expressão, isto é, daquilo que é, no artista, a soma de imaginação e sentimento. Acho que, na arte, a escolha de formas e cores (no caso da linguagem visual) é determinada pela "imaginação comovida" do artista. Sendo assim, o uso de certas cores e formas está comprometido com aquilo que atrai minha atenção e faz com que minha imaginação seja provocada. Por exemplo, eu dedico grande parte de minha atenção no dia a dia ao drama humano. Sou um leitor assíduo de jornais, esta "grande crônica do mundo". Assim, a maior parte de meu trabalho plástico tem a figura humana como tema principal. Gosto de desenhar a figura, mas gosto mais ainda de imaginar a figura humana em suas diversas possibilidades expressivas. Por outro lado, dadas as características da região agrícola onde nasci e cresci, a relação do ser humano com a natureza, especialmente, é algo através do qual a minha imaginação sempre se desenvolve. Gosto da natureza porque nela encontro contrastes de todas as cores e formas possíveis. Gosto das texturas que posso criar e da dinamicidade visual que provem do ser humano trabalhando a terra. Digo isto sem a pretensão de assumir para mim mesmo qualquer tipo de ingenuidade estética.

Vagalume É João, destaco um ponto importante de sua resposta: a linguagem está a serviço da expressão. Concordo contigo, a resposta é perfeita para aquela arte que costumo chamar de autêntica. você não acha que, nas artes plásticas, como nos outros campos, muitas vezes há uma inversão total desta máxima e se vê uma busca incessante da forma pela forma? O que representam as "escolas", as tendências preponderantes de determinadas épocas? Em que estas escolas ou tendências diferem ou deixam de se distinguir de meros modismos?

João Werner - Tenho a mesma visão que você sobre a autenticidade da expressão. Creio que a arte visual de nossa época contemporânea ainda enfrenta dois problemas oriundos do início do século passado (XX). Primeiro, o início e o desenvolvimento da ciência do marketing. Acho que o ocidente ainda engatinha nas artes da venda. Ainda há muitos abusos na divulgação e comercialização dos produtos. Creio que isso é normal e aceitável, pois a época mercantilista ainda tem muito a se desenvolver e aprimorar. Entretanto, esta tendência mercadológica se espalhou também nas artes visuais. Acho que muita coisa que é exposta como "arte" na verdade é apenas um produto de marketing. não tenho nada contra se vender pinturas como quaisquer outros objetos, porém você dizer que alguns produtos expostos em galerias e museus são arte do mesmo nível que um Rembrandt, um Velazquez ou Van Gogh é muito exagero. Acredito que com o aprimoramento do capitalismo, muita "arte" de hoje será vista apenas como é de fato, um produto comercializável. O segundo problema que o século XX trouxe foi o da "teorização" da arte. Muito do que é exposto hoje em museus é apenas uma mera exposição visual de conceitos filosóficos. É como se o artista estivesse tentando demonstrar alguma tese filosófica. Ao contrário, a arte não tem nada a ver com a teoria. A arte visual tem muita relação com a literatura e a poesia, mas não com o conceito. Entretanto, infelizmente, esta é a moda hoje: a arte não é gerada pela imaginação sensível do artista, mas sim pela leitura teórica. É uma pena. Criam-se as escolas e os estilos de um modo lógico e racionalista, quase como se fossem o desenvolvimento dialético de uma tese acadêmica. A academia e a filosofia são áreas valorosas da cultura humana, mas a arte (a sensibilidade) não pode ser gerada a partir da razão.

Vagalume É de novo, vejo sintonia em nossas opiniões. Começando pelo segundo problema que você aponta: o da "teorização" da arte. Pode parecer que se esteja aqui clamando contra o estudo, a busca da técnica, o que não é o caso... O que não se pode é trocar uma coisa pela outra... não é isto? há exposições de obras que são acompanhadas por explanações teóricas extremamente chatas, que fazem crer que a arte só é acessível para meia dúzia de previamente preparados. Isto se alinha a uma cultura de dominação e leva ao afastamento entre o criador e o público, concorda? Quanto ao segundo problema que você cita, o do marketing, ele vitima todas as áreas da arte: há escritores que clamam sua sensibilidade, alardeiam sobre ela e sobre seus dotes, viram arautos de seu próprio trabalho (mais que artistas). Não que se queira ser utópico a ponto de separar totalmente a arte da necessidade de divulgá-la, mas esta inversão de valores não te parece maléfica? Prejudicial à própria arte que se alardeia produzir? Por fim, no caso das artes visuais, será que o problema do marketing seria mais grave? Afinal de contas, nosso mundo é feito, essencialmente, de imagens. As necessidades de consumo, me parecem, são, quer se refiram a uma cerveja, quer a um automóvel, criadas através da mídia, por intermédio das imagens. Como lidar com a arte sem ser triturado por esta máquina de divulgação e, ao mesmo tempo, sem deixar de ir ao encalço de sua plateia? Você acha que esta é uma questão importante para o artista hoje?

João Werner - O que eu chamo de "teorização da arte" é a ideia equivocada de que se pode criar arte a partir de algum conceito. Sem a pretensão de escrever história da arte (tenho consciência de minhas limitações) creio que esta tendência de conceitualização começou com o uso das técnicas de perspectiva no renascimento. A ideia original, acredito, era criar um espaço visual mais verossímil e realista onde as figuras pintadas pudessem habitar. Mais tarde, percebeu-se todo o potencial geométrico da nova técnica, de se poder representar com exatidão matemática o espaço físico de três dimensões nas duas dimensões da tela. Creio que, nesse momento, passou-se de uma forma sensível de ilustração espacial para uma forma matemática e racionalista de representação. A arte começou a dar lugar à engenharia projetiva. No cubismo também, creio, aconteceu a mesma coisa. Picasso e Braque admiravam a estilização da arte africana, como é visível nas"Demoiselles..." de 1907, e é daí que começa o desenvolvimento imaginativo do cubismo. Eles pretendiam uma arte mais vigorosa, mística e "primitiva", como a arte africana que viam nos museus de etnologia. Creio que dizer que Picasso e Braque pretendiam representar as três dimensões do espaço na bidimensionalidade da tela, mostrando todos os lados de um mesmo objeto, é tornar o cubismo um tipo de engenharia espacial, ou reduzi-lo a uma mera pesquisa científica. Picasso tem uma frase célebre: "eu não procuro, eu acho", dizia ele. Creio que é isso que ele pretendia dizer: "eu não pesquiso, eu revelo". Quem faz pesquisa é cientista, quem faz projeto é engenheiro. O artista imagina, delira, "viaja", sonha, divaga, devaneia... o que você quiser, mas jamais faz algo que se possa chamar de "pesquisa". Eu posso afirmar a todos que sou neurocirurgião, mas isto faz de mim apenas um tolo. Do mesmo modo, aquilo que os "artistas" contemporâneos dizem estar fazendo, "pesquisando", jamais seria considerado como tal por um cientista verdadeiro. Como você mesmo disse, afirmar tais coisas é jamais dizer algo contra a ciência, a filosofia ou a engenharia em si mesmas. Seria muita estupidez fazer isto. O que se está dizendo é que a arte é uma área própria da cultura humana, independente da ciência e da filosofia. A arte tem valores próprios assim como os têm a ciência e a engenharia. Por outro lado, como você escreve acima, o marketing é um mal necessário para as artes atuais. Do mesmo modo que sua atuação é esmagadora nas opções da nossa vida atual, o artista precisa divulgar seu trabalho. Tenho a fé ingênua de que com o passar do tempo haverá um amadurecimento da sociedade de consumo. Acho que as manifestações de marketing de "arte" que são vazias de conteúdo simplesmente diminuirão. Se você pegar um site como o Youtube, por exemplo, você vai achar 99% de vídeos tolos e sem conteúdo. porém, por outro lado, Já achei lá vários vídeos do David Lynch e do Andrei Tarkovski, de quem sou fã. Acho que esta relação da arte com o marketing é importante, difícil, porém necessária.

Vagalume - Talvez eu seja um pouco mais pessimista que você quanto ao marketing, seu papel social e seu possível amadurecimento... Mas, acho que perderíamos o foco da entrevista, que como eu disse na primeira pergunta, é o teu trabalho. Se sua linguagem é, como você diz, fruto de sua "imaginação comovida", tenho o prazer de dizer, com toda a sinceridade, que seu trabalho nos coloca em "observação comovida", semelhante àquela em que nos deixa a leitura de um belo poema... Percebi a figura humana no centro de muitos trabalhos seus. É uma figura humana específica, parece ter traços, cores e expressão de sentimentos próprios... Seria o homem segundo João Werner? O que é o homem segundo João Werner?

João Werner - Agradeço muito por suas palavras sobre a minha obra, é uma grande satisfação lê-las. Quanto é figura humana, sem dúvida é o meu tema principal. Mas é um ser humano, bem o sei, pessimista (para usar uma palavra sua). Quero ressaltar, entretanto, que falo assim apenas depois de concluída a pintura. A minha linguagem é algo que "resulta" e não algo que eu esteja planejando fazer. Se eu planejasse com antecipação meus quadros, certamente seguiria o conselho de uma amiga proprietária de galeria: "pinte rostos mais alegres e mais cenas de festas". Teria pinturas mais agradáveis e, consequentemente, mais comercializáveis. Isso significa que, quando olho retrospectivamente tudo o que fiz, também para mim é uma novidade ver como eu próprio vejo o ser humano. Percebo que não é um conjunto de pinturas alegre ou otimista, mas, sinto, também, que não conseguiria fazer diferente. não sei como é para outras pessoas, mas quando começo a imaginar um quadro há uma espécie de solipsismo, de alheamento na hora de criar que muito me agrada vivenciar.

Vagalume - você aponta o ambiente rural da sua infância como elemento estético importante na sua arte. Certa vez, tive a oportunidade de ver uma exposição de Portinari. No primeiro contato com teu trabalho, disse à Cida Sepúlveda, que olhava o site comigo, me lembra algo de Portinari... você acha que a observação é pertinente? Portinari foi menino do interior paulista... Por que será que a "imaginação comovida" do artista vai buscar elementos na infância? "Ispaiano café".

João Werner - Bem, Portinari é, talvez, o maior artista plástico brasileiro. Acho que ele abriu essa área da imaginação sensível nas artes visuais que, sem nenhuma tolice xenofóbica, pode-se chamar de brasileirismo. Acho que a energia telúrica da terra aqui é incontornável e determinante. O Brasil é um grande útero, uma cornucópia, um grande Nilo, uma destas antigas Deusas pagãs da fertilidade. Portinari usou de uma linguagem moderna (à sua época) para retratar a relação do ser humano, do trabalho e da terra. Ser comparado a Portinari é uma grande honra, obrigado. Lembro-me de minha infância, quando andávamos descalços pelo quintal, cuidando de não pisar as abelhas que enxameavam sobre um tapete de uvas maduras que haviam caído da parreira, sem que vencêssemos comê-las, ou delas fazer doces e licores. Assim era também com as mangas, as jabuticabas, as laranjas que, espalhadas pelo chão, eram comidas pelo gado ou pelos porcos. Um "desperdício sagrado", pois Não havia em toda a redondeza quem não estivesse farto, quem não tivesse se saciado. Éramos pobres, mas não havia fome: dá pra compreender como o Brasil chegou até aqui, hoje? Eu não.

Vagalume - Chamam a atenção as tuas "Pinturas em cinza". você sabe dizer o que lhe fascina na ausência de cor? Estes trabalhos representam uma fase da tua arte ou estão mais ligados a um estado de "imaginação comovida" que te envolve ciclicamente?

João Werner - Minhas pinturas em cinza representam a noite. Gosto da ambiguidade da palavra "cinza", que significa ao mesmo tempo a ausência de cor e também o que resulta de uma combustão. É um tipo de alquimia da alma. Acho que o crítico Oscar D'Ambrosio definiu de modo melhor e mais poético estas minhas pinturas. A primeira das pinturas cinza foi o "Clube de Levitação". é uma ideia que ouvi de um poeta amigo, o José Júlio de Azevedo, e que me cativou. Quem são os sócios deste clube? Acho que é a imaginação que pode nos fazer levitar. Quando eu pintei este quadro, coloquei os sócios do clube praticando sua arte dentro de uma caixa fechada. Acho que é assim que a sociedade trata os imaginativos. Cada um destes quadros tem a sua estorinha. não são ambientes dos mais agradáveis e familiares, mas, convenhamos, a sociedade tem aspectos bem piores.

Vagalume - Como você vê o Erótico na sua arte? Na série que você expõe na internet, de sete quadros, três tratam de situações, digamos, incomuns, são justamente os quadros que terminam a série: Amantes (junho de 2002), mostrando um homem negro e uma mulher branca; Trio de Amantes (Agosto de 2002) e Duas Amantes (Julho de 2002). há uma preocupação ou uma comoção especial com o que se distingue do senso comum?

João Werner - Acredito que a arte plástica é a arte erótica por definição. O contato direto e intenso com a sensualidade da matéria é um aspecto central de qualquer técnica artística visual. O escultor e o pintor são amantes de suas tintas e argilas, literalmente. É preciso "sentir" a suavidade, a viscosidade, a fluidez de seu pincel sobre a tinta. O artista plástico deve estar apaixonadamente imerso na matéria. Certamente por essa sensualidade, as artes visuais tenham sido sempre banidas de muitas culturas religiosas, tal como correu no século VIII, com a chamada Guerra Iconoclasta, entre os partidários da igreja católica romana e a grega bizantina iconoclasta. Muitas religiões, como se sabe, Não admitem a representação da figura de Deus através das tintas e pincéis. Por outro lado, esta materialidade da arte visual está em total desacordo com um dos dogmas mais caros da modernidade estética. Quando Kandinsky lançou seu "Espiritual na arte", tentou de todos os meios associar a arte plástica com a música, tentando, ao mesmo tempo, distanciar a pintura da literatura. Engano. A música é a mais "espiritual" das artes, a mais imaterial, é quase o avesso da arte plástica. O erotismo e a sexualidade tem muita importância para mim. Nos últimos dois anos, tenho feito poucos quadros nesta temática. Espero retomá-la em breve.

Vagalume - Em uma das respostas acima você se referiu a "cornucópia", a "deusas pagãs da fertilidade" e a um "desperdício sagrado". Em muitas de suas obras Você trata do elemento "sagrado", reportando-se à mitologia greco-romana (faunos, sátiros, ninfas, etc). Como o artista João Werner se relaciona com o sagrado? De que forma estes elementos mitológicos aparentemente distantes de seu dia-a-dia o tocam? Ou eles servem, simplesmente, de pretexto para falar de outros temas interiores?

João Werner - Embora eu a conheça muito pouco, a cultura greco-romana é o meu horizonte espiritual. A espiritualidade é um tema onipresente, mas jamais dentro de moldes religiosos cristãos, por exemplo. Acho que os deuses e deusas gregas são mitologia autêntica, isto é, capazes de espelhar a humanidade em toda a sua riqueza espiritual, servindo como uma espécie de bússola para o autoconhecimento. Já disse alguém: "o mito fala em mim e eu o ouço". Acho que o Fauno, por exemplo, foi uma grande vítima histórica. Com o início da igreja cristã, ele foi apontado como a personificação do Mal encarnado e, desde então, nunca mais se livrou desta calúnia. Sabe-se que ele gostava de vinho e de belas ninfas, mas nada de mais que pudesse torná-lo o "Inimigo". Ainda nos dias de hoje, quando apresento estes meus quadros de faunos, muita gente torce o nariz, pensando tratar-se do Demônio. Me divirto muito com isso, mas também me sensibilizo pois a figura do fauno representa, para mim, todas as vítimas silenciosas da história, todos aqueles que foram esmagados por alguma ortodoxia.

Vagalume- Vejo que grande parte de sua produção recente está na área de Arte Digital, na qual você se vale de softwares computacionais para produzir séries limitadas de telas. Há, em relação às pinturas manuais, perda de qualidade ou personalização da arte com esta técnica? Este trabalho tem lhe permitido se realizar enquanto artista? Esta técnica tem facilitado a vida financeira do artista e tornado sua arte mais acessível ao público em geral?

João Werner - Tecnicamente, os softwares de pintura reproduzem com muita riqueza de detalhes as técnicas tradicionais de pintura. É possível, por exemplo, utilizar uma técnica de pintura muito parecida com a que Rembrandt usava, de várias camadas de tinta superpostas. Francamente, não vejo diferenças técnicas entre o meio tradicional à óleo e o software Painter, por exemplo. Por outro lado, os meios técnicos de reprodução da imagem digital estão se aprimorando cada vez mais. Hoje já é possível obter impressões em giclée extraordinariamente ricas e sofisticadas e, como a tecnologia progride aceleradamente, não poderemos dizer em que estágio de qualidade estarão as impressões dentro de 10 anos, por exemplo. Sou um entusiasta. Acho que a arte em computador é o futuro. Especialmente, acho que a arte digital termina com um mito da arte tradicional que é a fetichização. Muito dos Van Goghs estão hoje em dia em mãos de poucos e milionários colecionadores, invisíveis ao grande público. Sem querer parecer um ingênuo populista, acho que a arte digital reprodutível pode ajudar a disseminar a pintura em mais diversas camadas sociais.

Vagalume - Por fim, a Revista Vagalume agradece pelo seu tempo, abre espaço para Você falar livremente sobre qualquer tema de seu interesse e convida-o a participar na construção deste que pretende ser um espaço para a arte de qualidade, qualquer que seja sua forma de expressão.

João Werner - Eu é que agradeço pela oportunidade de dialogar com você algumas destas idéias que me são muito caras. Coloco-me a disposição para futuros intercâmbios. Mando o meu abraço a você e à Cida Sepúlveda e os meus votos de mais sucesso a este importante empreendimento cultural que é a Revista Vagalume.

Publicada em fevereiro de 2007. A revista eletrônica Vagalume não existe mais.

Poeta Clevane Pessoa

Blog "Clevane Pessoa"Clevane Pessoa: João, a Pintura Digital ganha cada vez mais espaço no cenário artístico brasileiro. Quando e em que circunstâncias você começou a se interessar por essa forma de expressão artística?

João Werner: Gostaria de acrescentar ao que vc diz, pois a pintura digital ganha espaço também entre a arte underground americana, especialmente em Los Angeles. Muitos artistas da grafitagem e da tatuagem, por exemplo, têm produção artística impressa digitalmente. Isso significa que é um movimento que se origina desde as raízes da arte profissional.
Conheço a computação gráfica há bastante tempo. Fiz algumas disciplinas com o Arlindo Machado no mestrado da PUC-SP, onde o conteúdo da disciplina eram as novas tecnologias artísticas. Mas meu trajeto artístico foi muito tortuoso, e apenas há 2 anos tive uma série de oportunidades felizes que me permitiram começar a trabalhar artisticamente com o computador constantemente.

Clevane Pessoa: As pessoas que se dizem "designers gráficas", as que são web-designers e os artistas digitais costumam ser confundidos?Como se fazer a distinção?

JW: Acho que a presença ou a ausência de alma faz toda a diferença. Sensibilidade e imaginação não podem ser substituídos por técnica ou tecnologia.

Clevane Pessoa: Como você protege seus direitos autorais? Já lhe aconteceu de ser copiado, imitado ou plagiado?

JW: Muitas pessoas usam minhas imagens, especialmente na internet. Como sei que tudo o que está na internet é de "domínio público", apenas curto o uso de meu trabalho de "ilustrador desavisado" por poetas, ensaístas e blogueiros. Acho que nesse nível, a simples referência ao meu nome Já é paga mais do que suficiente.

Agora, quanto ao ter algum prejuízo por uso de imagem minha por outras pessoas, ainda não tive a experiência. Sem dúvida deve ser algo bastante frustrante.

No meu site, evito que minhas imagens possam ser impressas sem minha autorização. Só isso.

Clevane Pessoa: Como aconteceu o convite para expor em Florença? Fale a respeito ... Já expôs outras vezes? Onde encontrar seus suas telas?

JW: Fui selecionado através de minha participação em um site de arte na internet, o AbsolutArts. Enviaram o primeiro convite por e-mail e, é claro, pensei que fosse algum vírus ou trote. Depois de receber o material impresso, vi a dimensão do evento. Participam mais de 700 artistas de todo o mundo, inclusive alguns brasileiros Já participaram em edições anteriores. Expus poucas vezes antes, apenas em minha cidade e em São Paulo. Minhas telas as vendo apenas através de meu site.

Clevane Pessoa: você tem alguma formação em artes plásticas tradicionais? E em pintura digital? Ou é autodidata?

JW: Sou formado em artes plásticas pela Faculdade Santa Marcelina de São Paulo. Mas, tive a sorte de frequentar desde garoto um atelier de um artista aqui de minha cidade, onde aprendi muito.)O que é arte, para você?Sente-se realizado?Ou o que falta para vc se sentir realizado nesse trabalho?

Arte é a capacidade de imaginar e sentir profundamente, e de expressar isto de tal maneira que outras pessoas possam também imaginar e sentir profundamente sua própria humanidade. Quando falo em arte, penso principalmente em Rembrandt e em Van Gogh. Creio que hoje em dia há uma inflação de "artistas". Eu mesmo não sinto ser um artista, embora me esforce bastante.

Clevane Pessoa: Alguma vez sua arte foi incompreendida?Ainda há quem não conheça a arte digital e a confunda com meras montagens?

JW: Acho que isso é algo inerente ao que faço. não pretendo fazer pintura de contestação ou algo assim mas, infelizmente para as minhas vendas, meus temas são pouco comerciais. Paciência. Faço o que quero e pago o preço.

Quanto à arte digital, ainda há muita confusão a respeito. Creio que o tempo vai esclarecer as coisas.

Clevane Pessoa: Obrigada pela entrevista. Meu blog está às ordens, para divulgar seu trabalho.

Entrevista publicada em 20 de junho de 2007. Endereço do blog

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