Entrevistas
1. Entrevista para o jornalista Paulo Briguet,
Publicada no Jornal de Londrina, pp. 17, 20 de
setembro de 2007, Londrina, PR.
Paulo Briguet: Que fantasmas habitam essas telas?
Goya? Gauguin? Francis Bacon? Bergman?
João Werner: Acho que esta é maior característica da arte. Quando admiro
uma obra de Bacon ou de Goya, por exemplo, esta obra "acende luzes" em
quartos escuros de minha imaginação. Quando estamos atentos, a arte
reinventa o nosso olhar, ampliando os limites de nossos sentimentos.
Esta série "Cinza" é originada assim. Há nela incrustrações de todos os
artistas que admiro. São as chamadas simpatias eletivas.
Paulo Briguet: Numa exposição anterior, “Abstratos e decorativos”, você
decompôs as formas e explorou as cores. Agora, você mantém as formas e
abre mão das cores. Por quê?
João Werner: Acho que o meu percurso criativo explica um pouco isto. As
telas "cinzas" foram pintadas entremeando o mainstream de minha produção
artística principal. Eu pintava uma tela de temática rural, por exemplo,
e depois uma tela "cinza". Foi como um movimento pendular, um pouco
estava sob a luz, um pouco sob a sombra.
Conhecendo minhas limitações artísticas e sem querer fazer comparações
ingênuas, lembro que Fernando Pessoa tinha suas várias "aparições"
poéticas, assim como Picasso pintou simultaneamente, durante muitos
anos, obras de estilo cubista e obras de estilo classicista.
Paulo Briguet: "Ícaro" está preso por ganchos; "Gauguin" está entre os
meninos cheiradores de cola; os sócios do "Clube da Levitação" flutuam
dentro de uma caixa. Por que todos estão fora do lugar?
João Werner: Lembro-me da famosa teoria do "desenraizamento" do filósofo
Walter Benjamin. Sem querer me alongar, creio que esta é uma das
experiências preponderantes da contemporaneidade. Estamos "fora de
lugar", vivendo em uma sociedade que não nos acolhe, estrangeiros
habitando em um mundo de consumo, como se fora um espelho em que não nos
vemos refletidos.
Paulo Briguet: Qual é o papel da memória no seu trabalho?
João Werner: A memória é a função preponderante em minha criação
artística. Lembro-me de ter lido o pintor Francis Bacon dizendo: "Estou
pleno de imagens". Bem, as minhas imagens não tem o mesmo valor que as
do pintor britânico, mas sinto-me carregado por elas. Por exemplo, tenho
quadros que ainda vou pintar e cujas imagens se originam de sonhos que
tive aos 4 anos. Não sei se isso é patológico, mas é assim que funciona
comigo.
2. Entrevista para Antônio Leal, Revista Vagalume
Vagalume - Acredito que, na arte, qualquer que seja o
meio de expressão, dois aspectos se destacam: a linguagem do artista e
os temas. Embora seja um leigo, senti no seu trabalho uma assinatura,
uma marca pessoal, que é o que chamo de linguagem. Você concorda com
esta minha observação? Como é o trabalho de um artista plástico na busca
de sua linguagem? Quais os elementos que caracterizam, fundamentalmente,
sua linguagem? Você saberia dizer? Já refletiu sobre isto?
João Werner - Creio que a linguagem, qualquer que seja ela, está a
serviço da expressão, isto é, daquilo que é, no artista, a soma de
imaginação e sentimento. Acho que, na arte, a escolha de formas e cores
(no caso da linguagem visual) é determinada pela "imaginação comovida"
do artista. Sendo assim, o uso de certas cores e formas está
comprometido com aquilo que atrai minha atenção e faz com que minha
imaginação seja provocada. Por exemplo, eu dedico grande parte de minha
atenção no dia a dia ao drama humano. Sou um leitor assíduo de jornais,
esta "grande crônica do mundo". Assim, a maior parte de meu trabalho
plástico tem a figura humana como tema principal. Gosto de desenhar a
figura, mas gosto mais ainda de imaginar a figura humana em suas
diversas possibilidades expressivas. Por outro lado, dadas as
características da região agrícola onde nasci e cresci, a relação do ser
humano com a natureza, especialmente, é algo através do qual a minha
imaginação sempre se desenvolve. Gosto da natureza porque nela encontro
contrastes de todas as cores e formas possíveis. Gosto das texturas que
posso criar e da dinamicidade visual que provem do ser humano
trabalhando a terra. Digo isto sem a pretensão de assumir para mim mesmo
qualquer tipo de ingenuidade estética.Boteco
Vagalume – João, destaco um ponto importante de sua resposta: a
linguagem está a serviço da expressão. Concordo contigo, a resposta é
perfeita para aquela arte que costumo chamar de autêntica. Você não acha
que, nas artes plásticas, como nos outros campos, muitas vezes há uma
inversão total desta máxima e se vê uma busca incessante da forma pela
forma? O que representam as “escolas”, as tendências preponderantes de
determinadas épocas? Em que estas escolas ou tendências diferem ou
deixam de se distinguir de meros modismos?
João Werner - Tenho a mesma visão que você sobre a autenticidade da
expressão. Creio que a arte visual de nossa época contemporânea ainda
enfrenta dois problemas oriundos do início do século passado (XX).
Primeiro, o início e o desenvolvimento da ciência do marketing. Acho que
o ocidente ainda engatinha nas artes da venda. Ainda há muitos abusos na
divulgação e comercialização dos produtos. Creio que isso é normal e
aceitável, pois a época mercantilista ainda tem muito a se desenvolver e
aprimorar. Entretanto, esta tendência mercadológica se espalhou também
nas artes visuais. Acho que muita coisa que é exposta como "arte" na
verdade é apenas um produto de marketing. Não tenho nada contra se
vender pinturas como quaisquer outros objetos, porém você dizer que
alguns produtos expostos em galerias e museus são arte do mesmo nível
que um Rembrandt, um Velazquez ou Van Gogh é muito exagero. Acredito que
com o aprimoramento do capitalismo, muita "arte" de hoje será vista
apenas como é de fato, um produto comercializável. O segundo problema
que o século XX trouxe foi o da "teorização" da arte. Muito do que é
exposto hoje em museus é apenas uma mera exposição visual de conceitos
filosóficos. É como se o artista estivesse tentando demonstrar alguma
tese filosófica. Ao contrário, a arte não tem nada a ver com a teoria. A
arte visual tem muita relação com a literatura e a poesia, mas não com o
conceito. Entretanto, infelizmente, esta é a moda hoje: a arte não é
gerada pela imaginação sensível do artista, mas sim pela leitura
teórica. É uma pena. Criam-se as escolas e os estilos de um modo lógico
e racionalista, quase como se fossem o desenvolvimento dialético de uma
tese acadêmica. A academia e a filosofia são áreas valorosas da cultura
humana, mas a arte (a sensibilidade) não pode ser gerada a partir da
razão.
Vagalume – De novo, vejo sintonia em nossas opiniões. Começando pelo
segundo problema que você aponta: o da “teorização” da arte. Pode
parecer que se esteja aqui clamando contra o estudo, a busca da técnica,
o que não é o caso... O que não se pode é trocar uma coisa pela outra...
Não é isto? Há exposições de obras que são acompanhadas por explanações
teóricas extremamente chatas, que fazem crer que a arte só é acessível
para meia dúzia de previamente preparados. Isto se alinha a uma cultura
de dominação e leva ao afastamento entre o criador e o público,
concorda? Quanto ao segundo problema que você cita, o do marketing, ele
vitima todas as áreas da arte: há escritores que clamam sua
sensibilidade, alardeiam sobre ela e sobre seus dotes, viram arautos de
seu próprio trabalho (mais que artistas). Não que se queira ser utópico
a ponto de separar totalmente a arte da necessidade de divulgá-la, mas
esta inversão de valores não te parece maléfica? Prejudicial à própria
arte que se alardeia produzir? Por fim, no caso das artes visuais, será
que o problema do marketing seria mais grave? Afinal de contas, nosso
mundo é feito, essencialmente, de imagens. As necessidades de consumo,
me parecem, são, quer se refiram a uma cerveja, quer a um automóvel,
criadas através da mídia, por intermédio das imagens. Como lidar com a
arte sem ser triturado por esta máquina de divulgação e, ao mesmo tempo,
sem deixar de ir ao encalço de sua platéia? Você acha que esta é uma
questão importante para o artista hoje?
João Werner - O que eu chamo de "teorização da arte" é a idéia
equivocada de que se pode criar arte a partir de algum conceito. Sem a
pretensão de escrever história da arte (tenho consciência de minhas
limitações) creio que esta tendência de conceitualização começou com o
uso das técnicas de perspectiva no renascimento. A idéia original,
acredito, era criar um espaço visual mais verossímel e realista onde as
figuras pintadas pudessem habitar. Mais tarde, percebeu-se todo o
potencial geométrico da nova técnica, de se poder representar com
exatidão matemática o espaço físico de três dimensões nas duas dimensões
da tela. Creio que, nesse momento, passou-se de uma forma sensível de
ilustração espacial para uma forma matemática e racionalista de
representação. A arte começou a dar lugar à engenharia projetiva. No
cubismo também, creio, aconteceu a mesma coisa. Picasso e Braque
admiravam a estilização da arte africana, como é visível
nas"Demoiselles..." de 1907, e é daí que começa o desenvolvimento
imaginativo do cubismo. Eles pretendiam uma arte mais vigorosa, mística
e "primitiva", como a arte africana que viam nos museus de etnologia.
Creio que dizer que Picasso e Braque pretendiam representar as três
dimensões do espaço na bidimensionalidade da tela, mostrando todos os
lados de um mesmo objeto, é tornar o cubismo um tipo de engenharia
espacial, ou reduzí-lo a uma mera pesquisa científica. Picasso tem uma
frase célebre: "eu não procuro, eu acho", dizia ele. Creio que é isso
que ele pretendia dizer: "eu não pesquiso, eu revelo". Quem faz pesquisa
é cientista, quem faz projeto é engenheiro. O artista imagina, delira,
"viaja", sonha, divaga, devaneia... o que você quiser, mas jamais faz
algo que se possa chamar de "pesquisa". Eu posso afirmar a todos que sou
neurocirurgião, mas isto faz de mim apenas um tolo. Do mesmo modo,
aquilo que os "artistas" contemporâneos dizem estar fazendo,
"pesquisando", jamais seria considerado como tal por um cientista
verdadeiro. Como você mesmo disse, afirmar tais coisas é jamais dizer
algo contra a ciência, a filosofia ou a engenharia em si mesmas. Seria
muita estupidez fazer isto. O que se está dizendo é que a arte é uma
área própria da cultura humana, independente da ciência e da filosofia.
A arte tem valores próprios assim como os têm a ciência e a engenharia.
Por outro lado, como você escreve acima, o marketing é um mal necessário
para as artes atuais. Do mesmo modo que sua atuação é esmagadora nas
opções da nossa vida atual, o artista precisa divulgar seu trabalho.
Tenho a fé ingênua de que com o passar do tempo haverá um amadurecimento
da sociedade de consumo. Acho que as manifestações de marketing de
"arte" que são vazias de conteúdo simplesmente diminuirão. Se você pegar
um site como o Youtube, por exemplo, você vai achar 99% de vídeos tolos
e sem conteúdo. Porém, por outro lado, já achei lá vários vídeos do
David Lynch e do Andrei Tarkovski, de quem sou fã. Acho que esta relação
da arte com o marketing é importante, difícil, porém necessária.
Vagalume –Talvez eu seja um pouco mais pessimista que você quanto ao
marketing, seu papel social e seu possível amadurecimento... Mas, acho
que perderíamos o foco da entrevista, que como eu disse na primeira
pergunta, é o teu trabalho. Se sua linguagem é, como você diz, fruto de
sua "imaginação comovida", tenho o prazer de dizer, com toda a
sinceridade, que seu trabalho nos coloca em "observação comovida",
semelhante àquela em que nos deixa a leitura de um belo poema... Percebi
a figura humana no centro de muitos trabalhos seus. É uma figura humana
específica, parece ter traços, cores e expressão de sentimentos
próprios... Seria o homem segundo João Werner? O que é o homem segundo
João Werner?
João Werner - Agradeço muito por suas palavras sobre a minha obra, é uma
grande satisfação lê-las. Quanto à figura humana, sem dúvida é o meu
tema principal. Mas é um ser humano, bem o sei, pessimista (para usar
uma palavra sua). Quero ressaltar, entretanto, que falo assim apenas
depois de concluída a pintura. A minha linguagem é algo que "resulta" e
não algo que eu esteja planejando fazer. Se eu planejasse com
antecipação meus quadros, certamente seguiria o conselho de uma amiga
proprietária de galeria: "pinte rostos mais alegres e mais cenas de
festas". Teria pinturas mais agradáveis e, conseqüentemente, mais
comercializáveis. Isso significa que, quando olho retrospectivamente
tudo o que fiz, também para mim é uma novidade ver como eu próprio vejo
o ser humano. Percebo que não é um conjunto de pinturas alegre ou
otimista, mas, sinto, também, que não conseguiria fazer diferente. Não
sei como é para outras pessoas, mas quando começo a imaginar um quadro
há uma espécie de solipsismo, de alheamento na hora de criar que muito
me agrada vivenciar.
Vagalume - Você aponta o ambiente rural da sua infância como elemento
estético importante na sua arte. Certa vez, tive a oportunidade de ver
uma exposição de Portinari. No primeiro contato com teu trabalho, disse
à Cida Sepulveda, que olhava o site comigo, me lembra algo de
Portinari... Você acha que a observação é pertinente? Portinari foi
menino do interior paulista... Por que será que a "imaginação comovida"
do artista vai buscar elementos na infância? "Ispaiano café"
João Werner - Bem, Portinari é, talvez, o maior artista plástico
brasileiro. Acho que ele abriu essa área da imaginação sensível nas
artes visuais que, sem nenhuma tolice xenofóbica, pode-se chamar de
brasileirismo. Acho que a energia telúrica da terra aqui é incontornável
e determinante. O Brasil é um grande útero, uma cornucópia, um grande
Nilo, uma destas antigas Deusas pagãs da fertilidade. Portinari usou de
uma linguagem moderna (à sua época) para retratar a relação do ser
humano, do trabalho e da terra. Ser comparado a Portinari é uma grande
honra, obrigado. Lembro-me de minha infância, quando andávamos descalços
pelo quintal, cuidando de não pisar as abelhas que enxameavam sobre um
tapete de uvas maduras que haviam caído da parreira, sem que vencêssemos
comê-las, ou delas fazer doces e licores. Assim era também com as
mangas, as jabuticabas, as laranjas que, espalhadas pelo chão, eram
comidas pelo gado ou pelos porcos. Um "desperdício sagrado", pois não
havia em toda a redondeza quem não estivesse farto, quem não tivesse se
saciado. Éramos pobres, mas não havia fome: dá pra compreender como o
Brasil chegou até aqui, hoje? Eu não.
Vagalume - Chamam a atenção as tuas "Pinturas em cinza". Você sabe dizer
o que lhe fascina na ausência de cor? Estes trabalhos representam uma
fase da tua arte ou estão mais ligados a um estado de "imaginação
comovida" que te envolve ciclicamente?
João Werner - Minhas pinturas em cinza representam a noite. Gosto da
ambigüidade da palavra "cinza", que significa ao mesmo tempo a ausência
de cor e também o que resulta de uma combustão. É um tipo de alquimia da
alma. Acho que o crítico Oscar D'Ambrosio definiu de modo melhor e mais
poético estas minhas pinturas. A primeira das pinturas cinza foi o
"Clube de levitação". É uma idéia que ouvi de um poeta amigo, o José
Júlio de Azevedo, e que me cativou. Quem são os sócios deste clube? Acho
que é a imaginação que pode nos fazer levitar. Quando eu pintei este
quadro, coloquei os sócios do clube praticando sua arte dentro de uma
caixa fechada. Acho que é assim que a sociedade trata os imaginativos.
Cada um destes quadros tem a sua estorinha. Não são ambientes dos mais
agradáveis e familiares, mas, convenhamos, a sociedade tem aspectos bem
piores.
Vagalume - Como você vê o Erótico na sua arte? Na série que você expõe
na internet, de sete quadros, três tratam de situações, digamos,
incomuns, são justamente os quadros que terminam a série: Amantes (junho
de 2002), mostrando um homem negro e uma mulher branca; Trio de Amantes
(Agosto de 2002) e Duas Amantes (Julho de 2002). Há uma preocupação ou
uma comoção especial com o que se distingue do senso comum?
João Werner - Acredito que a arte plástica é a arte erótica por
definição. O contato direto e intenso com a sensualidade da matéria é um
aspecto central de qualquer técnica artística visual. O escultor e o
pintor são amantes de suas tintas e argilas, literalmente. É preciso
"sentir" a suavidade, a viscosidade, a fluidez de seu pincel sobre a
tinta. O artista plástico deve estar apaixonadamente imerso na matéria.
Certamente por essa sensualidade, as artes visuais tenham sido sempre
banidas de muitas culturas religiosas, tal como ocorreu no século VIII,
com a chamada Guerra Iconoclasta, entre os partidários da igreja
católica romana e a grega bizantina iconoclasta. Muitas religiões, como
se sabe, não admitem a representação da figura de Deus através das
tintas e pincéis. Por outro lado, esta materialidade da arte visual está
em total desacordo com um dos dogmas mais caros da modernidade estética.
Quando Kandinsky lançou seu "Espiritual na arte", tentou de todos os
meios associar a arte plástica com a música, tentando, ao mesmo tempo,
distanciar a pintura da literatura. Engano. A música é a mais
"espiritual" das artes, a mais imaterial, é quase o avesso da arte
plástica. O erotismo e a sexualidade tem muita importância para mim. Nos
últimos dois anos, tenho feito poucos quadros nesta temática. Espero
retomá-la em breve.
Vagalume – Em uma das respostas acima você se referiu a "cornucópia", a
"deusas pagãs da fertilidade" e a um "desperdício sagrado". Em muitas de
suas obras você trata do elemento "sagrado", reportando-se à mitologia
greco-romana (faunos, sátiros, ninfas, etc). Como o artista João Werner
se relaciona com o sagrado? De que forma estes elementos mitológicos
aparentemente distantes de seu dia-a-dia o tocam? Ou eles servem,
simplesmente, de pretexto para falar de outros temas interiores?
João Werner - Embora eu a conheça muito pouco, a cultura greco-romana é
o meu horizonte espiritual. A espiritualidade é um tema onipresente, mas
jamais dentro de moldes religiosos cristãos, por exemplo. Acho que os
deuses e deusas gregas são mitologia autêntica, isto é, capazes de
espelhar a humanidade em toda a sua riqueza espiritual, servindo como
uma espécie de bússola para o auto-conhecimento. Já disse alguém: "o
mito fala em mim e eu o ouço". Acho que o Fauno, por exemplo, foi uma
grande vítima histórica. Com o início da igreja cristã, ele foi apontado
como a personificação do Mal encarnado e, desde então, nunca mais se
livrou desta calúnia. Sabe-se que ele gostava de vinho e de belas
ninfas, mas nada de mais que pudesse torná-lo o "Inimigo". Ainda nos
dias de hoje, quando apresento estes meus quadros de faunos, muita gente
torce o nariz, pensando tratar-se do Demônio. Me divirto muito com isso,
mas também me sensibilizo pois a figura do fauno representa, para mim,
todas as vítimas silenciosas da história, todos aqueles que foram
esmagados por alguma ortodoxia.
Vagalume - Vejo que grande parte de sua produção recente está na área de
Arte Digital, na qual você se vale de softwares computacionais para
produzir séries limitadas de telas. Há, em relação às pinturas manuais,
perda de qualidade ou personalização da arte com esta técnica? Este
trabalho tem lhe permitido se realizar enquanto artista? Esta técnica
tem facilitado a vida financeira do artista e tornado sua arte mais
acessível ao público em geral?
João Werner - Tecnicamente, os softwares de pintura reproduzem com muita
riqueza de detalhes as técnicas tradicionais de pintura. É possível, por
exemplo, utilizar uma técnica de pintura muito parecida com a que
Rembrandt usava, de várias camadas de tinta superpostas. Francamente,
não vejo diferenças técnicas entre o meio tradicional à óleo e o
software Painter, por exemplo. Por outro lado, os meios técnicos de
reprodução da imagem digital estão se aprimorando cada vez mais. Hoje já
é possível obter impressões em giclée extraordinariamente ricas e
sofisticadas e, como a tecnologia progride aceleradamente, não poderemos
dizer em que estágio de qualidade estarão as impressões dentro de 10
anos, por exemplo. Sou um entusiasta. Acho que a arte em computador é o
futuro. Especialmente, acho que a arte digital termina com um mito da
arte tradicional que é a fetichização. Muito dos Van Goghs estão hoje em
dia em mãos de poucos e milionários colecionadores, invisíveis ao grande
público. Sem querer parecer um ingênuo populista, acho que a arte
digital reprodutível pode ajudar a disseminar a pintura em mais diversas
camadas sociais.
Vagalume - Por fim, a Revista Vagalume agradece pelo seu tempo, abre
espaço para você falar livremente sobre qualquer tema de seu interesse e
convida-o a participar na construção deste que pretende ser um espaço
para a arte de qualidade, qualquer que seja sua forma de expressão.
João Werner - Eu é que agradeço pela oportunidade de dialogar com você
algumas destas idéias que me são muito caras. Coloco-me a disposição
para futuros intercâmbios. Mando o meu abraço a você e à Cida Sepulveda
e os meus votos de mais sucesso a este importante empreendimento
cultural que é a Revista Vagalume.
obs.: a revista eletrônica não está mais "on line"
3. Entrevista para a poetisa Clevane Pessoa
Clevane Pessoa:
João, a Pintura Digital ganha cada vez mais espaço no cenário artístico
brasileiro.Quando e em que circunstâncias você começou a se interessar por
essa forma de expressão artística?
João Werner:
Gostaria de acrescentar ao que vc diz, pois a pintura digital ganha espaço
também entre a arte underground americana, especialmente em Los Angeles.
Muitos artistas da grafitagem e da tatuagem, por exemplo, têm produção
artística impressa digitalmente. Isso significa que é um movimento que se
origina desde as raízes da arte profissional.
Conheço a
computação gráfica há bastante tempo. Fiz algumas disciplinas com o Arlindo
Machado no mestrado da PUC-SP, onde o conteúdo da disciplina eram as novas
tecnologias artísticas. Mas meu trajeto artístico foi muito tortuoso, e
apenas há 2 anos tive uma série de oportunidades felizes que me permitiram
começar a trabalhar artisticamente com o computador constantemente.
Clevane Pessoa: As
pessoas que se dizem "designers gráficas", as que são webdesigners e os
artistos digitais costumam ser confundidos?Como se fazer a distinção?
JW: Acho que a
presença ou a ausência de alma faz toda a diferença. Sensiblidade e
imaginação não podem ser substituidos por técnica ou tecnologia.
Clevane Pessoa:
Como você protege seus direitos autorais?Já lhe aconteceu de ser copiado,
imitado ou plagiado?
JW: Muitas pessoas
usam minhas imagens, especialmente na internet. Como sei que tudo o que está
na internet é de "domínio público", apenas curto o uso de meu trabalho de
"ilustrador desavisado" por poetas, ensaístas e blogueiros. Acho que nesse
nível, a simples referência ao meu nome já é paga mais do que suficiente.
Agora, quanto ao ter algum prejuízo por uso de imagem minha por outras
pessoas, ainda não tive a experiência. Sem dúvida deve ser algo bastante
frustrante.
No meu site, evito que minhas imagens possam ser impressas sem minha
autorização. Só isso.
Clevane Pessoa:
Como aconteceu o convite para expor em Florença?Fale a respeito ...Já expôs
outras vezes?Onde encontrar seus suas telas?
JW: Fui
selecionado através de minha participação em um site de arte na internet, o
AbsolutArts. Enviaram o primeiro convite por email e, é claro, pensei que
fosse algum vírus ou trote. Depois de receber o material impresso, vi a
dimensão do evento. Participam mais de 700 artistas de todo o mundo,
inclusive alguns brasileiros já participaram em edições anteriores.
Expus poucas vezes
antes, apenas em minha cidade e em São Paulo. Minhas telas as vendo apenas
através de meu site.
Clevane Pessoa:
Você tem alguma formação em artes plásticas tradicionais?E em pintura
digital?Ou é auto-didata?
JW: Sou formado em
artes plásticas pela Faculdade Santa Marcelina de São Paulo. Mas, tive a
sorte de frequentar desde garoto um atelier de um artista aqui de minha
cidade, onde aprendi muito.)O que é arte, para você?Sente-se realizado?Ou o
que falta para vc se sentir realizado nesse trabalho?
Arte é a
capacidade de imaginar e sentir profundamente, e de expressar isto de tal
maneira que outras pessoas possam também imaginar e sentir profundamente sua
própria humanidade. Quando falo em arte, penso principalmente em Rembrandt e
em Van Gogh. Creio que hoje em dia há uma inflação de "artistas". Eu mesmo
não sinto ser um artista, embora me esforce bastante.
Clevane Pessoa:
Alguma vez sua arte foi incompreendida?Ainda há quem não conheça a arte
digital e a confunda com meras montagens?
JW: Acho que isso
é algo inerente ao que faço. Não pretendo fazer pintura de contestação ou
algo assim mas, infelizmente para as minhas vendas, meus temas são pouco
comerciais. Paciência. Faço o que quero e pago o preço.
Quanto à arte digital, ainda há muita confusão a respeito. Creio que o tempo
vai esclarecer as coisas.
Clevane Pessoa:
Obrigada pela entrevista. Meu blog está às ordens, para divulgar seu
trabalho.
site:
http://www.clevanepessoa.net/blog.php?idb=6217 |