"Entre a cisterna e a fonte"
Oscar D'Ambrosio
Crítico de Arte
“A
cisterna contém, a fonte transborda”. A frase do poeta inglês Willliam Blake
(1757-1827), em O casamento do céu e do
inferno, permite um mergulho mais profundo nas pinturas da série
Cinza
de João Werner. Entre o negro do desespero e o branco da paz, existe um meio
tom. Ali, reside a obra do artista paranaense.
Nascido
em Bela Vista do Paraíso, PR, em 27 de outubro de 1962, teve seus primeiros
passos no universo da criação com o artista sacro Henrique Aragão, em Ibiporã,
PR. Graduado em Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina (SP) e mestre em
Comunicação Semiótica (PUC-SP), lecionou em São José dos Campos, SP, e
Londrina, PR, onde está radicado.
Ao
retomar a sua obra plástica, em 2002, dá vazão a pinturas de temática rural,
urbana, mitológica, nus, eróticos e abstratos, além de esculturas e painéis
em relevo. Nas obras em cinza, porém, encontra
a plenitude de uma expressão pessoal, entre a agonia e a
espiritualidade.
Os
óleos sobre tela realizados por Werner têm, tanto na temática, como nas
imagens escolhidas, a possibilidade de despertar no observador o mesmo
sentimento: inquietação. Isso ocorre, em boa parte, por ele dar uma visão
muito pessoal de diversos temas mitológicos.
A
imagem de Ícaro, por exemplo, um dos melhores resultados
do artista, mostra bem como o espaço vazio da tela pode ser de grande valia
para a composição. Este célebre personagem, por não ter seguido o conselho
do pai Dédalo de voar entre o céu e a terra, termina caindo sobre o mar que
hoje leva o seu nome.

Ícaro
é a imagem plástica que transmite com mais vigor a arte de Werner. Dédalo
fora claro: ele não devia se aproximar da água do mar, pois o sal grudaria em
suas asas de penas, mas também não poderia tentar atingir o sol, já que a
cera que grudava as penas derreteria.
Os
trabalhos do artista paranaense não são nem muito humanos nem muito divinos.
Estão nesse cinza que fascina por ser difícil de definir. A imagem de um anjo
de asas cortadas conduz a um raciocínio análogo, pois o ser divino sem seu
instrumento para voar se humaniza.
Anjo
caído compõe essa mesma idéia, reforçando a pintura cinza de
Werner como a criação de seres limítrofes entre o divino e o humano. Surge
assim Orfeu, um dos deuses mais próximos dos homens, com sua paixão
pelas artes, simbolizados na lira, religião e filosofia, sendo considerado um
educador de homens, levando-os da barbárie à civilização.

E
se o limite entre a barbárie e a civilização é uma característica das
pinturas em cinza, nada mais apropriado que a homenagem de Werner ao pintor Gauguin, que abandonou uma posição estável na França para se aventurar pelos
mares do sul, redescobrindo-se pintor com cores quentes e uma sensualidade que
chocou os europeus.

Werner
oferece em seus cinzas imagens que levitam, faraós em busca da imortalidade,
mergulhos no vazio e ninfas nuas em carreira. São seres sempre entre uma coisa
e outra: o solo e o ar, a vida e a morte, o apoio e o nada, a doçura e os músculos
retesados.
Se
a cor cinza remete ao resíduo de uma combustão, aponta então para uma destruição
interna, marcada pelo aniquilamento, luto e destruição. Paralelamente, esse
sentimento caminha junto ao desejo de reconstrução. Nesse vai-e-vem, a arte de
Werner revela toda a força.
Assim
como Ícaro cai, mas se imortaliza no nome de mar, as telas da série Cinza de
João Werner machucam numa primeira observação, mas maravilham porque apontam
para um novo mundo: aquele em que não há verdades ou mentiras, brancos ou
negros, mas restos de cinzas da humanidade a serem rejuntadas com talento artístico,
como cacos de vidro a serem reciclados em nome de algo maior: o poder que a arte
dá a cada criador de se reinventar constantemente, com a capacidade de
interiorizar a energia vital da cisterna e o vigor explosivo da fonte.
Dados da publicação
Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais
pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus
de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando
a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
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