"Um artista sem medo de cara feia"
Paulo Briguet
Londrinense João Werner abre exposição
“Feios, sujos e malvados”
na próxima sexta-feira
Um samba de Carlos Lyra, na voz de Elis Regina, diz:
“O feio não é bonito”. E não é mesmo. O feio, além de feio, é triste. Às
vezes, grotesco. O artista
plástico João Werner conhece o bonito e o feio – e desta vez decidiu
retratar o feio. Na sexta-feira, ele abre a exposição “Feios, sujos e
malvados”. São 11 pinturas digitais que combinam humor obscuro e temas
polêmicos. A mostra inaugura o novo ateliê do artista. No local, além
das telas prontas, o público poderá ver quadros e esculturas em processo
de criação, além dos equipamentos e ferramentas do artista.

João Werner esclarece que seu
trabalho não é crítica social. O artista apenas decidiu fazer pinturas
sobre o universo de sexo, drogas e violência. Sexo, comprado e vendido.
Drogas, consumidas na rua. Violência de gente grande. Tanto é que a
exposição não é recomendada para menores de 18 anos.
Como influência, Werner cita autores do pop-surrealista americano, entre
eles Mark Ryden, Gary Baseman, Eric Fischl e Damien Hirst. O último
vendeu recentemente, por R$ 100 milhões de dólares, uma caveira com
diamantes. “Esta exposição é
uma decorrência de meus trabalhos anteriores, como a série ‘Cinza’, com
pinturas a óleo. Agora, eu usei a técnica da pintura digital para
explorar esse universo pessimista e tragicômico; a diferença está no uso
de cores”, explica João Werner. Outra característica dos quadros está no
figurativismo explícito. “Não quis me limitar aos aspectos formais do
trabalho, mas quis contar histórias”, afirma. Cada pintura narra um
acontecimento. Ao optar pela
recriação artística da feiúra, João Werner sabe que não terá um caminho
fácil pela frente. “As pessoas têm uma resistência ao feio. Desejam ser
bajuladas por uma arte que agrada, uma arte decorativa.”
Nas telas do artista londrinense, a mistura entre sexo, violência e
humor faz lembrar alguns contos de Dalton Trevisan. A exemplo do
escritor curitibano, Werner disseca as ambigüidades do submundo. A
alegria da pedinte que ganhou R$ 5 – o preço de uma lata de cola – é um
símbolo desse universo ruinoso, paradoxal, difícil. E o difícil, como
diria Vicente Matheus, não é fácil.
Werner cria espaço próprio de exposições
João Werner resolveu criar um espaço próprio de exposições. De três em
três meses, ele pretende ocupar o ateliê com novos trabalhos. “Aqui faço
o que quiser; a bola é minha”, brinca o artista. Em novembro de 2008,
Werner participa da Bienal “Arte con raíz en la tierra”, da Universidade
Autônoma de Chapingo (México), com 15 pinturas digitais. O interessante
é que não parecem telas feitas em computador. “Gosto desse tipo de
trabalho porque o conceito e a técnica se juntam de maneira rápida e
agressiva.”
Dados da publicação
Briguet, Paulo, "Um artista sem medo de cara feia",
Jornal
de Londrina, Londrina, 10 de setembro de 2008, Caderno "Divirta-se", pp. 1. |