"Do figurativo ao abstrato"
Paulo Briguet
Jornalista
Picasso disse certa vez que tentava sempre pintar o mais
perfeito quadrado possível. "Na diferença entre o quadrado geométrico e
o quadrado da tela, eu estou aí", completou.
Como todo bom artista, João Werner sabe que o importante não é a figura que
se pinta, mas a beleza que se manifesta. Existe um toque pessoal inconfundível
que se manifesta no estilo do verdadeiro pintor, seja qual for o tema de seu
trabalho.
Em maio, Werner realizou uma exposição de telas que valoriza figuras humanas
do cotidiano. Com cores rústicas e desenhos complexos, o pintor retratava
trabalhadores rurais, homens no botequim, mulheres estendendo lençóis. Na
última sexta-feira, Werner abriu a exposição "Abstratos e Decorativos",
no Jasmin Salão de Chá, com nove telas totalmente diferentes do trabalho
anterior: agora, o artista explora as possibilidades de cor e contraste da tinta
acrílica sobre tela. Totalmente abstrato, Werner não deixa de ser Werner (ver
pinturas
abstratas).

A identidade artística de João Werner está, portanto, em algum
lugar entre o figurativo e o abstrato. Sua inspiração pode vir das cenas do
dia-a-dia (como na exposição de maio) ou da própria manipulação das tintas (como
na atual exposição). E ele estudou o assunto: sua dissertação de mestrado, na
PUC-SP, focalizou a obra de Piotr Mondrian, pintor holandês que viajou do
figurativismo às formas geométricas básicas. "Ao longo dos anos, Mondrian pintou
a mesma série de árvores. Sempre que ele voltava à mesma série, eliminava os
componentes, até chegar à geometria pura, ao essencial", diz Werner. E, de certa
forma, Mondrian venceu: a pureza geométrica baseada em suas pesquisas de cor e
forma é hoje a pedra-de-toque no design da sociedade contemporânea. Há Mondrian
na propaganda, na comunicação – e até mesmo na diagramação desta página de
jornal.

Uma brincadeira séria com as tintas – assim podem ser definidas as obras que
fazem parte desta pequena exposição de João Werner no Chá Jasmin. Para
definir a sensação que teve ao fazer essas telas, Werner vale-se de uma
citação do pintor britânico Francis Bacon: "Quando o pintor leva o
pincel à tela, ele nunca sabe o que vai acontecer".
João Werner concorda: para ele, o imprevisível é estimulante. Os
trabalhos abstratos representam um viés mais lúdico de sua
personalidade artística. "Eu faço um jogo com as cores, explorando
diversas possibilidades. As cores mais claras por baixo criam uma
certa tensão, e a mesma cor, conforme está disposta no quadro, muda
completamente. O cinza perto de um vermelho parece mais esverdeado;
o cinza perto de um amarelo parece mais violáceo."

Estudioso, pesquisador, professor e, acima de tudo, artista, João Werner sabe
que a cor e a forma jamais deixarão de oferecer surpresas aos olhos humanos.
Ele declara: "Arte abstrata, figurativa, conceitual – isso não é
importante. A qualidade não mora na linguagem". A qualidade mora aí –
no mundo criado quando o artista leva o pincel à tela.
Dados da publicação
Matéria publicada no Jornal de Londrina, Caderno
de Cultura, página 1, 09/10/2005, Londrina (PR). |